Hip-hop faz das periferias do DF palco de cultura e transformação

Ao completar 53 anos, em 11 de agosto, o hip-hop se consolida no DF como um movimento cultural capaz de mudar vidas por meio da arte. Em Ceilândia, Sesc + Rap celebra a data com shows gratuitos

Há cidades que contam suas histórias pelos monumentos. Brasília também conta as suas pelas rimas. Nas ruas, nas escolas, nas batalhas de rima e nos espaços culturais das regiões administrativas, o hip-hop encontrou terreno fértil para crescer e se transformar em uma das expressões artísticas mais marcantes do Distrito Federal. Ao completar 53 anos, o movimento que nasceu como voz das ruas segue formando artistas, criando vínculos e abrindo caminhos para uma juventude que encontra, na cultura, um lugar para existir.

O calendário deste mês ajuda a contar essa história. Em 11 de agosto de 1973, DJ Kool Herc comandou uma festa no número 1.520 da Sedgwick Avenue, no Bronx, em Nova York. Nela, Herc utilizou dois toca-discos (pick-ups) para prolongar os trechos instrumentais e percussivos — os breaks — das músicas, técnica que se tornou fundamental para o desenvolvimento do hip-hop. Nascia ali, oficialmente, o movimento cultural que anos depois ganharia o mundo. Para celebrar a data, neste sábado (29/8), Ceilândia será palco do Sesc + Rap, com shows gratuitos de artistas como Djonga e Duquesa, além de atividades voltadas à cultura hip-hop.

O rapper e ativista GOG destaca que as conquistas atuais são fruto de um processo contínuo de construção do próprio movimento. “O que colhemos, hoje, é o resultado de políticas culturais estabelecidas pelo hip-hop ao longo de décadas. O hip-hop é uma cultura que extravasa o tema musical, trazendo historicidade, conhecimento, sensibilidade e outros pilares que transformam o ser humano em um ente coletivo”, destaca o músico. 

Da rua para a vida

Para quem cresceu dentro dessa cultura, o hip-hop não começa no palco. Ele aparece antes, muitas vezes ainda na infância, quando uma música toca em casa, uma roda se forma na rua ou uma batalha chama a atenção de quem passa. É assim que o rapper Real Kush, 25, de Sobradinho, conta ter construído sua relação com o movimento. Influenciado pela própria família, ouviu rap desde criança e passou a pesquisar mais sobre a cultura aos 11 anos. Aos 15, escreveu os primeiros versos. 

“O rap foi responsável por moldar minhas ideias na adolescência, me ensinou muita coisa sobre a vida, sobre relações, sobre a minha cor e sobre meu papel na sociedade”, afirma.

A música também atravessou relações familiares. Durante a adolescência, quando enfrentava dificuldades na relação com o pai, algumas canções ajudaram Real Kush a olhar para aquela convivência de outra maneira. “Algumas músicas que eu ouvia na época do Sant me fizeram olhar para essa relação com mais cuidado e maturidade”, conta.

Para ele, a música foi além da formação artística. Ela ajudou a construir uma perspectiva de futuro. “O rap mudou minha vida e minha forma de vê-la, tenho total certeza de que se não fosse o rap eu seria mais uma estatística”, afirma.

Cultura que acolhe

Nascida e criada em Ceilândia, a MC de batalha Leticia Ribeiro, 26, conhecida como Fuagazzi, entrou no hip-hop aos 10 anos, pelo breaking. Aos 13, passou a disputar profissionalmente competições de street dance. Três anos depois, chegou às batalhas de rima do DF, onde encontrou uma nova forma de expressão.”Percebo que nasci no berço onde o hip-hop sempre esteve à minha volta”, conta. 

A aproximação com o movimento aconteceu enquanto ela também enfrentava dificuldades pessoais. Para Fuagazzi, o hip-hop ajudou a construir ferramentas para lidar com momentos difíceis e encontrar novos caminhos. “O hip-hop me trouxe perspectiva de vida. Por ter tido uma infância complicada, tive que fazer escolhas difíceis e o hip-hop me construiu como pessoa para lidar com essas dificuldades”, afirma.

Hoje, a artista enxerga na cultura uma possibilidade concreta de transformação dentro das periferias. “O hip-hop é a maior ferramenta dentro da periferia. A mudança é visível para pessoas da nossa própria comunidade”, diz.

Para ela, o movimento pode apresentar aos jovens outras possibilidades além da violência. “Jovens vendo perspectivas na arte, não só no crime, um abrigo, um lar, uma família que abrace. Nem tudo são flores, mas estamos plantando boas sementes”, afirma.

Identidade da capital 

O Distrito Federal ocupa um lugar particular na história do rap brasileiro. De Brasília, saíram nomes que ajudaram a consolidar o gênero no país e que transformaram as experiências da capital e de suas periferias em música.

A força da produção local também está relacionada ao próprio território. Brasília é conhecida pelos monumentos, pela arquitetura e pelo centro político do país, mas existe uma outra cidade para além do cartão-postal. É nas regiões administrativas que grande parte da cultura hip-hop encontra espaço para florescer.

O deputado distrital Max Maciel (Psol-DF), autor da Lei Distrital nº 7.274, de 5 de julho de 2023, que reconhece o hip-hop e suas manifestações artísticas como patrimônio cultural imaterial do DF, afirma que a legislação surgiu da luta pelo reconhecimento de um movimento que já era forte nas periferias.

“Foi o reconhecimento da luta do movimento tão forte nas periferias do DF e, obviamente, na busca para a não criminalização desse movimento que, historicamente, sofre preconceitos”, afirma. Para Max, a cultura exerce um papel que ultrapassa a produção artística. “Atua na transversalidade de uma parcela da juventude, dando autoestima, poder, transformação e reconhecimento social”, diz.

O poeta GOG ressalta a dimensão global e histórica dessa transformação que ultrapassa as barreiras geográficas. “O hip-hop é a maior política pública surgida no mundo nos últimos 50 anos. Amadurecemos no século 20 e ganharemos novos palcos no século 21, ajudando não só as periferias, mas o mundo por inteiro”, analisa o rapper. 

Inserido na cultura de batalha desde os 12 anos e referência entre a juventude do Distrito Federal, Tito Noleto, 16, se consolidou como um dos nomes mais relevantes ao vencer, pela segunda vez, a Batalha das Aldeias, em 2025, a maior competição de batalha do país. 

O MC acredita que o encontro entre cultura e educação pode mudar trajetórias. “A cultura, assim como a educação, é um instrumento de libertação e transformação, capaz de dar uma nova perspectiva para o jovem que, muitas vezes, está sendo aliciado para o crime ou está desesperançoso com o próprio futuro”, afirma.

Nesse espaço, o hip-hop aparece como possibilidade de pertencimento. “Oferece a esse jovem um espaço de pertencimento, expressão e identificação com a sociedade de uma maneira que faça sentido para ele”, diz. A transformação, segundo o MC, pode ser percebida entre pessoas próximas. “O que não faltam são exemplos de colegas de profissão e amigos meus que foram transformados pelo hip-hop”, conta.

É uma transformação que acontece sem alarde. Às vezes começa com uma caixa de som, um microfone emprestado, uma roda formada na praça ou alguns versos escritos no caderno. E, aos poucos, aquilo que parecia apenas uma rima ganha outra dimensão.

Hip-hop ou rap?

O hip-hop é um movimento cultural que reúne diferentes formas de expressão artística, tradicionalmente divididas em quatro elementos. O rap é a vertente musical, marcada por versos rimados e falados ritmicamente sobre uma batida.  O DJing é a atuação do DJ (disc jockey), que seleciona, mistura e manipula músicas e batidas. O breaking é a dança urbana associada ao hip-hop, praticada pelos chamados b-boys e b-girls. Já o graffiti é sua manifestação visual, baseada principalmente em pinturas, letras e desenhos realizados em espaços urbanos.

*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Pinho

Fonte Correio Braziliense
Foto: Batalha da Escada