Pessoas com Deficiência (PcD) que garantiram entradas para assistir às apresentações da cantora Marisa Monte e do cantor Silva, no último sábado (22/8), no festival de música Na Praia, em Brasília, tiveram as respectivas experiências prejudicadas por problemas de logística e superlotação do espaço do evento, localizado às margens do Lago Paranoá, no Setor de Clubes Esportivos Sul (SCES).
De acordo com depoimentos enviados ao Correio, fãs dos músicos de diferentes idades alegaram terem tido fortes dificuldades para aproveitar o evento. Relataram, ainda, que a quantidade de pessoas presentes na área do festival foi determinante para a insatisfação durante os shows, e, consequentemente, para o mau aproveitamento do espaço exclusivamente destinado ao público PcD.
Em contato com a reportagem, a psicóloga Ana Carolina de Andrade, de 37 anos, foi ao show na companhia do filho, Miguel Vieira de Andrade, de 14. O jovem, diagnosticado com paralisia cerebral, autismo e epilepsia, ouviu da mãe que iria à apresentação em questão após Ana Carolina descobrir que o local tinha um espaço exclusivo para o público PcD. De acordo com ela, ouviu da organização que era preciso apenas levar um documento que detalhasse e comprovasse a condição do filho.
“Fomos ao show e, de cara, foi difícil chegar ao próprio espaço em questão. Estava muito, muito lotado, mais do que em qualquer outro que já havia ido ali. Parecia até uma realidade de ‘overbooking’, como se tivessem vendido mais do que tinham capacidade de receber. Mesmo com muita dificuldade de locomoção, pois meu filho tem dificuldade para andar, conseguimos chegar lá”, relembrou.
No entanto, a expectativa rapidamente se tornou em decepção. Ao chegar na área PcD, Ana Carolina e o filho se depararam com um espaço “completamente lotado”. Ali, ouviu de um funcionário que ela receberia uma senha. O bilhete só seria chamado em caso de eventual desistência. Porém, o telão marcava o número 126. Na mão dela, estava com a 150ª posição.
Ao tentar questionar a organização para entender se alguma alternativa seria providenciada para que o público PcD não contemplado poderia assistir ao show de outra forma, ela não obteve resposta.
“O funcionário que questionei não sabia me dizer se havia alternativa. Ninguém respondia nada, com cara de quem não sabiam o que fazer. Recebemos a garantia de que, ali, assistiríamos ao show, mas não foi isso o que encontramos lá. Ouvi ainda que bastava ir à gerência e resolver a situação. Mas, se nem uma pessoa sem deficiência conseguiria andar normalmente por ali, imagina uma PcD”, contou.
Ana Carolina conta que duas pessoas da produção só chegaram ao local após o início das apresentações. De acordo com a psicóloga, ainda assim, não houve nenhuma solução. Sem alternativas, muitas pessoas sofreram com quadros de mal-estar diante do problema. Em meio a gritos, alguns chegaram a ter crises de ansiedade, conforme conta Ana.
“As pessoas não foram tratadas com respeito. Foi humilhante. Eu chorei. De casa, meu esposo chorou, ficou nervoso. O festival se auto-intitula como o mais acessível do país, e vimos que isso é uma mentira. Não foi acessível, não foi respeitoso e nem humano com as pessoas com deficiência. Eles não se prepararam para a quantidade de pessoas com deficiência que poderiam estar ali”, lamentou.
“Faltou boa vontade. Em nenhum momento eles moveram um grão para resolver a situação. Faltou respeito, também, pois esperaram o show começar para tentar resolver o problema, o que não fizeram. Trataram a situação como um infortúnio. Uma experiência terrível. Quero que isso venha à tona para que não aconteça com mais ninguém. Meu filho viu o show de pé, com dor e com a visão ruim, mas viu o show. Mas e como ficaram as outras pessoas?”, questionou.
Problemas com estacionamento e ironia de funcionário
A advogada Elis Breiner, de 28 anos, foi outra dessas pessoas. Também fã de Marisa, Elis é diagnosticada com disautonomia, Síndrome de Ehlers-Danlos (SED) e Síndrome da Ativação Mastocitária (SAM). Além de ter problemas com multidões, não pode ficar muito tempo em pé, e nem sofrer mudanças bruscas de temperatura no corpo. No para acompanhar a cantora, foi outra a deixar o espaço decepcionada. A insatisfação começou já antes da entrada no espaço do festival.
Depois de ficar 40 minutos numa fila de carros para chegar a um estacionamento exclusivo destinado ao público PcD, descobriu que, na verdade, a informação estava errada. O local, que ficava localizado em um espaço “consideravelmente” longe da entrada, estava lotado. Além disso, era, na realidade, dividido entre taxistas.
Depois de descer do carro e caminhar até o show, encontrou, da mesma forma, o espaço para o público PcD lotado, assim como o restante do espaço do festival. Lá, foi atendida pelo único profissional disponível no espaço em questão. De acordo com Elis, apenas 20 lugares haviam sido disponibilizados por lá, fato esse que, de acordo com ela, não foi comunicado durante o processo de venda de ingressos.
“Eles alegam, na organização do evento, que um espaço para pessoas PcD estará disponível, mas não falam que está sujeito a lotação, que só cabiam 20 pessoas, assim como não avisam em nenhum lugar, já durante a execução do evento, que o lugar já está lotado, que não há mais espaço. Dentro da área do festival, não há nenhuma sinalização para pessoas PcD, nada, nem básico, para pelo menos mostrar as coisas. Se eu tivesse essa ciência, não teria ido ao show”, explica.
Elis conta que o funcionário no local ria dela e da amiga, sua acompanhante, sobre as reclamações em relação às condições do espaço. De acordo com a advogada, o funcionário informou que o ingresso para PcD não estava atrelado à área PcD, ou seja, a compra do ingresso não indica que o comprador terá acesso ao espaço, o que, para ela, “não faz nenhum sentido”. Além disso, a falta de uma solução na tentativa de encontrar um espaço mais adequado não foi por falta de opção.
“O Na Praia é um espaço enorme, com, pelo menos, sete áreas VIPS. Não foi por falta de lugar. Eu era a quarta pessoa que chegava lá com mal-estar. Não ofereçeram nem um copo d’água. A única coisa que ele (funcionário) informou que poderia fazer era chamar um brigadista. Não deixaram que nós nem mesmo ocupássemos a rampa de acesso ao espaço. Ou seja, não tinha nenhuma forma de ver o show, nem mesmo pelos telões, a não ser dentro do espaço PcD”, reclamou.
“As duas pessoas chamadas da produção não resolveram nada. Em seguida, uma psicóloga foi chamada. O que, mais uma vez, não fez sentido, pois era uma profissional sem nenhuma condição de lidar com pessoas com deficiência. E outra, nós não precisávamos de atendimento psicológico ou psicosocial. Queríamos a estrutura que nos foi prometida, mas não foi entregue. Fui tratada com ironia, desprezo. Me senti humilhada. Tive que sair do show pois fui humilhada”, acrescentou.
Insatisfação com falta de esclarecimentos foi padrão negativo entre reclamações
Assim como Elis, a gestora de seguros Hélida Miranda, de 32 anos, e portadora de deficiência motora nas pernas, foi outra a ter dificuldades no evento desde o estacionamento. No espaço destinado ao público PcD, no entanto, viveu questões levemente distintas. Depois de reclamar da situação e questionar um funcionário presente no local sobre hipóteticas alternativas para resolver o problema, Hélida ouviu do homem, identificado por ela como Gabriel, que a área destinada ao público em questão era aquela, e que “não havia nada o que pudesse ser feito”.
“O funcionário, pelo que entendi, parecia ser alguém dono de uma empresa do gênero, que cuida de acessibilidade. Ele pediu desculpas, e informou que o local era aquele, e era isso. Além disso, me entregou um termo de satisfação do próprio Na Praia, que deveria ser preenchido para que as reclamações fossem pontuadas, o que eu fiz”, contou.
Da mesma forma, Hélida questionou a ausência de ação para encontrar uma alternativa, dada quantidade expressiva de áreas vips. Além disso, afirmou “não conseguir entender” o que fazia com que a área PcD fosse tão pequena, principalmente em comparação a outros setores específicos da área do festival. “As coisas precisam ser informadas, pois as pessoas saíram das casas delas com esperança de assistirem ao show, o que elas não conseguiram fazer”, salientou.
“Eu já elogiei muito o Na Praia. No ano passado, mesmo que tenha sido em um show de escala menor, tive uma experiência maravilhosa. Mas, nesse ano, saí muito frustrada. É bem humilhante. Senti muita dor no pé, durante e depois. Será que está sendo cumprido, ali, o que está na lei? É um espaço muito pequeno. Tem camarotes enormes, mas a área PcD é minúscula. Senti como se meu dinheiro fosse bem-vindo, pois paguei caro, mas que o espaço não é digno para me receber. Dá vontade de não voltar mais”.
Hélida conta que encaminhou um e-mail extenso à R2 produções, empresa responsável pela organização do festival, com questionamentos e pedidos por esclarecimentos em relação às questões, mas que não obteve resposta.
Em nota conjunta com o festival, a empresa se posicionou. Em comunicado enviado ao Correio, relatou que “operou com a capacidade de público autorizada e fiscalizada pelos órgãos responsáveis”. Além disso, salientou que “mais de 80% ficaram satisfeitos com a experiência proporcionada pelo festival”, de acordo com a Pesquisa de Satisfação do cliente. Não foi especificado, no entanto, se a pesquisa foi realizada com todo o público, ou só com os pagantes de ingressos PcD.
Na nota em questão, ressaltam ainda que o espaço em questão pode ser reservado até às 20h nas noites de show, mas, que após esse horário, funciona “por ordem de chegada (sujeito a lotação)”, fato esse, que, segundo as testemunhas, não havia sido informado.
Veja a nota completa enviada pelo Na Praia Festival:
“Mais do que um festival de entretenimento, o Na Praia construiu, ao longo de suas edições, uma relação permanente com a acessibilidade e com a confiança de seus clientes.
Na noite do último sábado, 22, o evento operou com a capacidade de público autorizada e fiscalizada pelos órgãos responsáveis.
De acordo com a Pesquisa de Satisfação do cliente, realizada após os shows, mais de 80% ficaram satisfeitos com a experiência proporcionada pelo festival.
Reforçamos que o espaço PCD, concebido especialmente para que estes clientes tenham uma melhor experiência, pode ser reservado com entrada garantida até às 20h nas noites de show. Após o horário, ele funciona por ordem de chegada (sujeito a lotação).
O Grupo R2 reforça suas políticas de ESG durante todo o festival, como o Espaço de Acolhimento Sensorial, que funciona durante todo o evento.
O Na Praia também oferece atendimento especializado, áreas reservadas, interpretação em Libras, kits sensoriais, tecnologias assistivas e outros recursos para que pessoas com deficiência possam aproveitar o festival com mais autonomia, conforto e segurança.”
Fonte Correio Braziliense
Foto: Reprodução / Instagram / @napraiafestival












