Às segundas-feiras de manhã, Kael tem um compromisso: o banho e a tosa. O carro de uma pequena empresa de vizinhança, do Guará, vem buscá-lo em casa e, algumas horas depois, o traz de volta. É uma rotina que já dura mais de dois anos e que, de certa maneira, também organiza a minha agenda. Enquanto ele está fora, preciso me manter em casa, esperando o momento em que alguém vai tocar a campainha.
Quase sempre é o dono do pet shop quem vem. Um homem na casa dos 50, simpático, desses cuja presença se torna familiar sem que a gente perceba exatamente quando isso acontece. Eu levo o meu filhote até a porta, ele o recebe com carinho, chama-o de “garotinho”, e conversamos sobre qualquer coisa: o carro que dá defeito, o Brasil que não avança ao hexa, meus dois outros cachorros que morreram recentemente. Pequenas coisas, aparentemente sem importância, que vão criando uma intimidade curiosa entre duas pessoas que se encontram apenas alguns minutos, uma vez por semana.
Eu sei que o pet shop é um negócio familiar, tocado por ele, pela esposa, pelo filho e pela nora. Sei que há um neto, que gosta de futebol, que é carinhoso com meu Kael. Só nunca soube o nome dele. Durante mais de dois anos, nunca perguntei. Em minha defesa, talvez porque não houvesse necessidade. Afinal, há pessoas que entram na nossa rotina sem que jamais façamos o movimento de apresentá-las formalmente.
Elas simplesmente estão ali. Tornam-se o rapaz que entrega a encomenda, a moça do café, o porteiro da noite, o motorista do “baú” que passa sempre no mesmo horário. Não sabemos seus nomes, mas reconhecemos seus rostos. Sabemos seus gestos, seus horários, suas pequenas preferências. De algum modo, conhecemos essas pessoas sem conhecê-las.
No último domingo, porém, eu soube seu nome: Armando. Soube porque ele havia morrido no sábado, vítima de um infarto fulminante, jogando futebol. E foi assim que finalmente esse homem tão presente na nossa rotina familiar foi nominado.
A notícia de sua partida me tocou como se eu tivesse perdido um familiar ou um amigo. Nessa segunda-feira, pela primeira vez em mais de dois anos, ninguém veio buscar Kael. E havia alguma coisa estranha que não cabia apenas na ausência de um prestador de serviço frequente.
É curioso como a morte modifica retrospectivamente as nossas relações. De repente, aquela conversa sobre carros deixa de ser apenas uma conversa sobre carros, os comentários sobre a Copa do Mundo passam a pertencer à memória e até o jeito como ele pegava meu cãozinho no colo se transforma em lembrança que dói. E eu me dou conta de que um homem que eu conhecia tão pouco fazia parte da minha vida. E, agora, vai fazer muita falta às segundas.
A vida é cheia dessas presenças pequenas. Pessoas que não sabem o quanto participam da nossa história porque nunca lhes contamos. Gente que encontramos no elevador, na padaria, na banca de jornal, no estacionamento, no caminho para o trabalho. Pessoas que atravessam nossos dias com uma frequência tão regular que parecem pertencer à paisagem. Até que um dia deixam de aparecer.
Talvez a morte tenha essa crueldade particular: ela nos revela algumas pessoas justamente quando já não podemos mais conhecê-las melhor. O nome, a curiosidade e a vontade de perguntar sobre a vida, os sonhos, a infância e os planos chegam depois. Descobrimos que havia uma pessoa inteira por trás de uma presença que conhecíamos apenas em pequenas parcelas.
Agora eu sei que, na próxima segunda, o carro vai estacionar, alguém vai tocar a campainha novamente na porta de casa, meu “garotinho” vai sair para o banho e a tosa, a agenda vai congelar por algumas horas e a vida vai repetir o ritual. Só que, desta vez, eu vou saber quem não está do outro lado da porta: Armando nunca mais virá. E eu só consigo pensar que talvez devêssemos perguntar mais nomes enquanto as pessoas ainda estão por perto. Antes que suas ausências as nomeiem.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Imagem gerada por IA












