Janeiro Seco desafia brasileiros a ficarem 31 dias sem álcool

Campanha chama atenção para construção de hábitos saudáveis

O início do ano traz novas expectativas para aqueles que se planejam e tentam cumprir suas metas. Há quem deseje aumentar a família, conquistar um bom emprego, conhecer novos lugares e melhorar a saúde física e emocional. Nesse contexto, a campanha Janeiro Seco, cuja proposta é ficar os 31 dias do mês sem consumir bebidas alcoólicas, chama atenção para a construção de hábitos saudáveis e que possam inspirar mudanças a longo prazo. A ideia parte do objetivo de ‘desintoxicar’ o corpo após os exageros típicos das festas de fim de ano. 

A estudante Lays Miranda, 22 anos, está aderindo ao Janeiro Seco pela primeira vez, com a finalidade de perder peso e ter uma rotina mais saudável. “Tenho muito apego à aparência do meu corpo, além de alguns problemas relacionados a distúrbios alimentares. Como estou muito insatisfeita com isso no momento, pretendo seguir à risca o desafio”, revela. Os excessos de fim de ano foram o estopim para a mudança. 

“Normalmente, só bebo em encontros sociais, mas como participei de muitas confraternizações em dezembro, acabei passando dos limites. Tenho me sentido muito inchada”, conta a jovem. O maior obstáculo, segundo ela, será não beber em festas, visto que “janeiro é o mês com mais aniversários do ano”, diz. Questionada se teme sentir-se ‘deslocada’ das demais pessoas nesses contextos, Lays garante: “Não tenho qualquer preocupação em relação a isso, pois meus amigos e familiares não me pressionam para beber”. 

A longo prazo

A pausa de 31 dias no consumo de bebidas alcoólicas promove, antes de tudo, um ‘descanso’ vital para o órgão responsável por processar as toxinas. Segundo a nutricionista esportiva Rayanne Marques, a abstinência faz com que o fígado reduza a sobrecarga causada pelo etanol, recuperando sua eficiência em funções como o controle da glicose e o metabolismo de gorduras. Além do equilíbrio interno, os efeitos externos costumam aparecer rapidamente, especialmente no espelho e no descanso noturno.

Rayanne evidencia que o álcool interfere diretamente na fase REM — o sono profundo — e estimula a desidratação. Ao suspender o consumo, o corpo restabelece ciclos reparadores. “Na pele, a redução da inflamação sistêmica e a melhor hidratação celular favorecem um aspecto mais viçoso e menos oleoso”, pontua a profissional, destacando que os benefícios estéticos são reflexos de uma regulação hormonal mais saudável.

No que diz respeito à balança, o impacto do Janeiro Seco é direto, visto que o álcool é uma fonte densa de ‘calorias vazias’ (fornecem energia sem nutrir) e um agente inflamatório. Segundo a nutricionista, a retirada da bebida melhora a resposta hormonal ligada à saciedade e reduz drasticamente a retenção de líquidos. “Muitas pessoas observam redução de inchaço e de medidas corporais já nas primeiras semanas, além da queda de marcadores inflamatórios que beneficia desde as articulações até o intestino”, afirma.

Convívio social 

Quem também vai aderir ao Janeiro Seco é o servidor público Fernando Ramos, 45, motivado por um incômodo com o próprio corpo e com o impacto emocional provocado pela bebida. “Nestas férias, engordei muito e eu estava me sentindo inchado. Além disso, toda vez que eu bebia demais me sentia ansioso no dia seguinte”, explicou. O desafio traz à tona a preocupação de como se portar em ambientes sociais nos quais o álcool é a regra.

“Acho que a pressão dos amigos não será um problema, mas temo me sentir incomodado quanto a mim mesmo, porque é reconhecer um outro eu. Costumo me sentir chato quando não bebo”, confessa Fernando. Os espaços de socialização, segundo a psicóloga e neuropsicóloga Juliana Gebrim, são o maior obstáculo à abstinência, no entanto, não devem representar uma obrigação de beber. “Quando a pessoa fica sem beber, ela começa a perceber se o álcool fazia falta apenas em situações sociais ou se era usado para aliviar tensão, ansiedade, frustração ou cansaço. Nesses ambientes, o foco deve ser a convivência e a conversa”, explica. 

A psicóloga chama atenção para as reações exacerbadas à falta do copo, que podem representar um sinal de alerta. “Se a ausência da bebida gera irritação intensa, inquietação ou dificuldade de lidar com emoções, pode indicar que o álcool vinha sendo usado como regulador emocional, e não apenas por prazer social”, diz. Para evitar a insistência de amigos em bares e confraternizações, Fernando já preparou uma tática de ‘autodefesa’. “Falo que estou tomando antibiótico”, revela, aos risos. Fato é que o Janeiro Seco será, para o servidor público, parte de um projeto maior, cujos objetivos incluem focar nos estudos para concursos públicos e economizar dinheiro. 

Firme e forte

Caso ocorra algum deslize, a recomendação das especialistas é não permitir que a autocrítica interrompa o processo. “Escorregar não invalida todo o processo alcançado até hoje. O desafio pode continuar a partir dali, com curiosidade e não com culpa”, aconselha a psicóloga. Para ela, a mudança sustentável nasce da reflexão: “O Janeiro Seco não é sobre perfeição, mas sobre consciência, aprendizado e escolha”.

Lays Miranda e Fernando Ramos pretendem seguir firmes e fortes. “Um erro não poderá mudar toda a promessa que fiz comigo mesma”, diz a estudante. “Se ocorrer um deslize, com certeza eu vou retomar. Não penso em abandonar o projeto, afinal, tenho muitos propósitos”, ressalta o servidor público.

Cinco dicas

Antes de beber, pergunte-se: “Eu quero beber porque estou com sede, por que estou estressado ou apenas por hábito?”;

Tenha uma ‘bebida de transição’: não fique de mãos vazias em eventos sociais. Aposte em água com gás, gelo e limão ou chás gelados. Ter um copo na mão reduz a ansiedade social e a chance de alguém te oferecer bebida;

Quando a vontade bater, faça outra atividade (beba água, caminhe ou mude de cômodo) e espere 15 minutos. Na maioria das vezes, a urgência diminui drasticamente;

Não tente dar explicações complexas para os amigos. Faça como o Fernando: tenha uma resposta curta e firme, seja verdade, seja uma desculpa funcional;

Em vez de pensar no que está abrindo mão, foque no que está ganhando. Acordar sem ressaca, ter mais dinheiro no bolso e a pele melhor são recompensas imediatas que reforçam essa escolha.

Por Gazeta do DF
Fonte Correio Braziliense
Foto: maurenilson