Time dos sonhos: escola pública de Planaltina aprova 32 alunos em vestibulares

Estudantes de curso técnico integrado ao ensino médio do CED Stella dos Cherubins se destacam nas seleções da Universidade de Brasília e Estadual de Goiás

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Faz duas semanas que o resultado do vestibular da Universidade de Brasília (UnB) foi divulgado, mas Kethellen Luanda Pena, 18 anos, ainda se emociona ao falar sobre o que sua aprovação no curso de direito significa para ela e para os seus pais. “A gente está chorando até hoje. Minha mãe é cobradora de ônibus e meu pai é açougueiro. Fazer graduação é algo diferente, a gente sempre teve uma renda baixa, é uma família humilde, então vai mudar nossa vida, é uma realidade que a gente nunca imaginou”, conta.

A menina é aluna do Centro Educacional Stella dos Cherubins Guimarães Trois, o CED Stella, em Planaltina. A escola aprovou 32 alunos em universidades públicas ou com bolsas integrais em particulares, ofertadas pelo Programa Universidade para Todos (Prouni). Muitos deles passaram em mais de uma seleção e serão os primeiros a cursarem o ensino superior na família, como Kethellen.

Ela diz que no percurso da aprovação pensou, por várias vezes, que não era capaz: “Quando a gente olha a diferença entre uma escola pública e uma particular, você vê que é uma preparação totalmente diferente. Então, eu pensava que não ia conseguir, por mais que me esforçasse.” Porém, as atividades extras voltadas à preparação para os vestibulares e, principalmente, o ensino integral ofertado pela escola fizeram a diferença e Kethellen, agora, passa a se ocupar com o novo mundo que vai encontrar no campus Darcy Ribeiro e o futuro, como advogada.

O motivo do sucesso do CED Stella, na opinião do diretor Gilberto de Oliveira, é o sentimento de pertencimento nutrido por toda comunidade escolar. Muitos professores que, hoje, lecionam no centro de ensino passaram pelas carteiras da escola, como alunos, e se sentem comprometidos a devolver todo investimento que receberam. A presença dos pais no colégio é constante e o comprometimento dos vizinhos ajudou, até mesmo, a diminuir os índices de criminalidade nas redondezas do prédio.

“Nosso aluno, muitas vezes, é o filho de um amigo, é alguém da nossa rua. Planaltina, por mais que seja uma cidade relativamente grande, é pequena em relação ao resto do DF. Então, a gente tem sempre uma ligação com o outro, e isso faz diferença”, diz Gilberto. “Os professores sentem que a realidade do aluno é a realidade deles e que nós somos capazes de mudar essa realidade com a educação.”

O professor de biologia Felipe Cardia confirma a tese: aluno do CED Stella durante o ensino médio, foi aprovado na UnB e, anos depois, voltou para ao centro de ensino como professor. “A gente fala bastante na universidade pública que a gente tem o dever de dar um retorno à sociedade. Eu fui feliz aqui durante bons anos e eu tenho um sentimento de querer dar o melhor sempre para essa escola”, afirma.

Preparação

Além da grade regular de disciplinas, a escola oferece nos itinerários formativos do novo ensino médio aulas de educação financeira e escrita criativa. Além de ajudar na redação, as oficinas de escrita resultam na produção de um livro, com uma coletânea de textos produzidos pelos alunos, que é publicado ao final de cada ano. Os sábados letivos são destinados à revisões e os professores ficam disponíveis para tirar dúvidas.

O colégio também designa um profissional da equipe pedagógica para auxiliar os estudantes na inscrição nos vestibulares e no processo de pedidos de isenção ou concorrência por cotas. Durante o ensino médio, os alunos também contam com o apoio da orientação pedagógica, que atua, principalmente, para evitar a evasão escolar por gravidez ou pelo ingresso no mundo do trabalho, dois principais desafios que afastam os adolescentes dos estudos, segundo a direção.

“Nós temos também um grupo de RPG para os alunos do terceiro ano, que ajuda na preparação para o vestibular. Toda quarta-feira os alunos se reúnem com os professores de história, português e matemática para criarem as histórias, e os professores vão trazendo as informações que estão ligadas ao jogo”, conta Gilberto.

O professor Felipe ressalta que a infraestrutura da escola também colabora para o ensino de exatas e biológicas. “Felizmente, nós temos um laboratório de ciências biológicas que acaba sendo uma sala de aula temática e isso faz total diferença.”

Geraldo Ramiere, professor de história, completa: “Há um planejamento que a escola nos pede, para além do conteúdo humanizado que faz parte do currículo, que é de um conteúdo direcionado ao vestibular. Em todas as minhas aulas, por exemplo, eu tinha uma revisão de questões de vestibular, do Enem e do PAS.”

Esforço e sacrifícios

Letícia Ingrid da Silva, 18 anos, foi aprovada no curso de matemática tanto na UnB como na Universidade Estadual de Goiás (UEG). Enfrentar o machismo em um campo predominantemente masculino não assusta a menina, afinal, para chegar até a tão sonhada vaga em uma universidade pública, teve que superar muitos desafios. O pai, que já faleceu, era carroceiro, e a mãe, diarista. “Desde pequenas, eles falavam para gente estudar, que era isso que ia nos dar um futuro melhor. Eu vou ser a primeira da família a fazer uma federal, minha irmã mais velha foi a primeira a fazer faculdade da família inteira”, lembra.

A garota diz que foi preciso muito investimento para alcançar a aprovação. Com um grupo de colegas, vez ou outra, matava aula — mas para estudar. Às vésperas das provas, sentia que precisava reforçar a revisão, então, com o apoio da direção, faltava o turno complementar do ensino técnico. O sacrifício valeu a pena, Letícia e os amigos foram todos aprovados em universidades públicas.

O colega Arthur Guilherme dos Santos, 18 anos, estende a vitória à família, que foi uma rede de apoio importante durante a jornada de preparação. “Falei para os meus pais, minha avós, minhas tias, que foi uma conquista de todos nós, não só minha. Se perguntar para mim o que aconteceu entre o meio do ano passado até dezembro, eu não lembro de nada. Eu estava enfurnado estudando, abdiquei de muita coisa, se não fosse o apoio deles, não tinha conseguido”, conta o menino, que foi aprovado no curso de administração, na UnB. Fluente em inglês, espanhol e, agora, iniciando o francês no Centro Interescolar de Línguas, Arthur pretende seguir carreira em comércio exterior ou na diplomacia e ultrapassar novas fronteiras.

Ramiere acredita que, após todo esforço também da equipe pedagógica, a aprovação dos alunos vem para coroar as revoluções que a educação pode promover. “Entrar em uma universidade pública, para esses meninos, vai gerar dois efeitos: primeiro, para eles, possibilitando uma prosperidade financeira. Mas, em segundo, um efeito coletivo, que é o exemplo que eles deixam de que é possível que um estudante de escola pública, vindo das mais diversas realidades, meninos, meninas, de várias etnias, pode chegar lá. Esse é um impacto muito simbólico muito forte”, celebra o educador.

Ensino integral

O CED Stella tem 1.360 alunos em turmas que vão do ensino fundamental, anos finais, ao ensino médio. Dentre esses, em torno de 260 estudam em regime integral no curso técnico de informática integrado ao ensino médio. Os alunos passam o dia todo na escola durante três dias da semana e, nos outros dias, têm aulas apenas em um turno.

A vice-diretora Vanessa Ferreira de Lima fala que o índice de reprovação entre esses alunos é praticamente zero, enquanto o índice de aprovação em vestibulares é o maior da escola. Ao contrário de desestimular o acesso ao ensino superior, o colégio tem observado que o curso profissionalizante é um estímulo para que os adolescentes continuem os estudos.

“Acredito que, por estarem acostumados a estudar o dia todo, os alunos do ensino integral acabam tendo um melhor desempenho na preparação para o vestibular. O curso também tem algumas disciplinas sobre o mundo do trabalho e empreendedorismo, o que faz com que eles tenham essa visão mais aberta sobre as possibilidades de futuro do que os meninos do ensino médio regular”, explica.

Cauã Siqueira, 18 anos, concorda: “como eu tinha mais tempo investido na escola, eu me acostumei, me habituei, a ficar mais tempo estudando, em geral.” Calouro de matemática da UnB, o adolescente diz que quer voltar ao CED para ajudar os colegas com a disciplina. “O que eu puder fazer por essa escola, eu faço, no que puder ajudar as pessoas com conteúdo e tal, eu sempre vou estar disponível”, se compromete.

Por Priscila Crispi do Correio Braziliense 

Foto: Priscila Crispi/CB/D.A Press / Reprodução Correio Braziliense