Brasília é imensa em diversidade religiosa

Brasília contempla cerca de 800 templos religiosos e, dentre os 7 monumentos considerados patrimônio histórico do DF, três ligados à religião

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Com uma população estimada em 3.055.149, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a capital federal é casa de praticantes das mais variadas religiões. Reflexo dessa diversidade, em seus 5,4 mil quilômetros quadrados, Brasília contempla cerca de 800 templos religiosos e, dentre os 7 monumentos considerados patrimônio histórico do DF, três estão relacionados à alguma religião. São eles a Catedral de Brasília, o santuário Dom Bosco e o templo piramidal da Legião da Boa Vontade.

“Comparado com outros estados, o DF conta com oferta mais diversificada de alternativas religiosas”, avalia Gilson Ciarallo, sociólogo especialista em religião. Locais como o Templo da Boa Vontade e o Vale do Amanhecer, inclusive, são alguns dos locais mais visitados em Brasília. Fundado em 1989, o templo recebe mais de um milhão de visitas por ano. O que atrai os turistas, e até os próprios candangos, é a presença de uma pedra, no topo da pirâmide do local, considerada o maior cristal puro do mundo. Seu significado é o ecumenismo total, ou seja, a presença unificadora de Deus.

Se tratando da comunidade do Vale do Amanhecer, localizada em Planaltina e reconhecida como a primeira manifestação religiosa criada junto com o Distrito Federal, cerca de 5 mil pessoas frequentam, semanalmente, a doutrina. O objetivo, neste caso, vai muito além de mera visitação, e envolve uma busca por curas e tratamentos espirituais. São motivos como esse que fazem com que os rituais praticados no local sejam reconhecidos como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Fundado pela clarividente Neiva Zelaya (Tia Neiva), o espaço tem como principal marca de seus ritos o sincretismo religioso, que têm influências cristãs, das religiões afro-brasileiras, e até símbolos baseados em crenças orientais, incas, maias e egípcias, tudo praticado por uma comunidade de mais de mil médiuns.

Outro local que carrega uma forte ligação mística e que representa a diversidade presente no quadradinho é a Praça dos Orixás. Localizada às margens do Lago Paranoá, ela é um ponto de referência das práticas religiosas de matriz africana. “A considero um símbolo que nos representa na cidade, e mostra como Brasília procura ser receptiva a religiões não cristãs”, afirma o presidente da Federação de Umbanda e Candomblé de Brasília e Entorno, Rafael Moreira. A praça conta com um terreno de aproximadamente 200 m2 dividido em três áreas. Na parte central, por sua vez, encontram-se as esculturas de 16 orixás, erguidas na década de 1990. “Seu nome original, quando foi fundada em 1976, era Praça de Iemanjá”, destaca o representante, a título de curiosidade.

Na Asa Norte, também é possível encontrar a maior mesquita islâmica da América Latina. Sendo a única em Brasília, a construção ocupa uma área de 2,8 mil m², e tem capacidade para mil pessoas. Sua estrutura apresenta fortes traços da arquitetura árabe e possui, inclusive, um minarete, local destinado às cinco orações diárias cujo sacerdote chama os fiéis. Religiões orientais também têm espaço na capital. O Templo Budista Terra Pura, localizado na 315/316 Sul, por exemplo, representa outro lugar bastante visitado, devido sua capacidade de permitir que famílias nipo-brasileiras resgatem seus laços com a tradição japonesa.

Preconceito ainda é forte

Apesar das fortes representações, Brasília ainda registra muitos casos de intolerância religiosa, principalmente com aquelas não cristãs. “Houve, nos últimos anos, um forte recrudescimento da intolerância religiosa aqui, na capital federal, o que parece ter arrefecido entre nós uma presença mais visível do exercício de religiosidade diferente daquelas alternativas mais tradicionais”, salienta Gilson Ciarallo. Como explica o professor do curso de Ciências Sociais do CEUB, alternativas religiosas, principalmente aquelas de matriz africana, voltaram a sofrer muitos ataques. “Digo que voltaram a sofrer porque, no Brasil, a intolerância em relação às alternativas não cristãs eram alvo de perseguição décadas atrás”, observa o estudioso.

De acordo com Gilson, hoje, essa mesma intolerância volta a crescer principalmente devido à disseminação de um discurso religioso que vê no diferente a expressão do mal ou a manifestação do oposto do sagrado. “Esse exercício da religiosidade de forma dissonante aparece, então, como ameaça ao tipo exercício da fé em Deus que consideram como sendo único verdadeiro”, afirma o sociólogo.

Prova desse preconceito ainda muito presente, Rafael Moreira diz sofrer, constantemente, ataques vindos de praticantes de outras religiões. “Já sofri, pessoalmente, muitos ataques, principalmente por ser representante das religiões de matriz africana. No entanto, todo o nosso grupo convive com isso”, compartilha o presidente da Federação. Conforme traz o professor universitário, quanto mais se percebe a expressão da religiosidade diversa como ameaça, maior será a rejeição e o preconceito em relação a essa mesma expressão. As religiões de matriz africana, como o Candomblé, são aquelas que, como salienta Gilson, mais têm sofrido preconceito dessa natureza.

Fazendo um breve resgate histórico para ilustrar a origem de tal cenário, o pesquisador expõe que a inserção da mensagem cristã no Brasil se deu em íntima relação com a organização dos outros poderes instituídos. “O processo de colonização se deu ao mesmo tempo em que ocorria a evangelização, num tempo em que existia a instituição do Padroado (Igreja e Estado institucionalmente fundidos), sendo a fé cristã a fé oficial, única possível”, pontua. Tal fator, inclusive, estaria diretamente ligado com a predominância da prática católica no Brasil e, consequentemente, em Brasília. Dados do IBGE mostram que os católicos têm o maior número de praticantes e representam o maior grupo religioso da região, com 1.455.134. Os evangélicos estão logo atrás, com 690.982.

“Aliado a essa caracterização como fora dos padrões, usa-se o próprio discurso religioso para identificar, naquelas outras práticas diferentes, a manifestação não somente do pecado, mas também do mal e de todos os sentidos daquilo que se opõe ao sagrado: o profano, o diabo, o inferno, o maligno”, acrescenta Gilson Ciarallo. Os argumentos usados pelos intolerantes seriam, então, de ordem religiosa. “De forma geral, são atacados como se, numa guerra, atacamos o inimigo. No linguajar religioso, inclusive, o ‘inimigo’ aparece com muita frequência”, finaliza.

Desinformação

Para Rafael Moreira, o que falta é informação. “Falta conhecimento. Muitas pessoas se permitem uma ‘lavagem cerebral’, confiam só no que escutam e não enxergam que na nossa religião, assim como em todas, só existe paz, amor e caridade. O mal quem faz é o ser humano”, enfatiza o representante da Fundação. Para ele, é necessário um plano mais eficaz para defesa das religiões, e que o país como um todo chame as religiões para uma união, ao invés de se distanciarem.

De modo a complementar a mesma ideia, o sociólogo defende a necessidade de mais debates acerca do tema, principalmente nos canais que devem ser entendidos como laicos: escola, centros comunitários e demais associações. No entanto, para ele, é o Estado o ente que mais tem faltado com vistas à disseminação de valores associados ao reconhecimento e respeito às minorias, às diferenças, incluindo aquelas relativas ao exercício da religiosidade. “Essa intolerância tende a sobreviver quando os discursos oficiais deixam de encorajar a liberdade religiosa, o reconhecimento das diferenças e a livre expressão da fé”, finalizou o professor.

Por Mayra Dias do Jornal de Brasília com informações de Sandra Barreto da Gazeta do DF

Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil