Criatividade não se aposenta! Conheça Margô, símbolo de alto astral após os 60

A última reportagem da série Envelhecer é moderno mostra que convivência, cultura e afeto desafiam a lógica da dependência e revelam que a criatividade não se aposenta no DF

Se durante tanto tempo os únicos papéis oferecidos à Margô Lima foram secundários, pequenos e quase invisíveis, foi depois dos 60 anos que sua luz brilhou de vez. Hoje, aos 73, ela canta, atua, modela e participa de campanhas publicitárias. “Sou pau para toda obra”, pontua. Margô, nome artístico de Maria Gorete Lima, é só sorrisos. “Depois de tantos infortúnios nesta vida, enfim, me sinto grande”, afirma. Nos palcos do Teatro Newton Rossi, no Sesc Ceilândia, nasceu uma estrela.

Movimentada, a trajetória artística começou como uma alternativa à depressão profunda. À época, ainda aos 49 anos, as atividades no Serviço Social do Comércio (Sesc-DF) surgiram da necessidade de preencher suas horas com alguma forma de lazer. “Como essa unidade fica próxima à minha casa, aproveitei para fazer um pouco de tudo. Hidroginástica, musculação, teatro, artesanato e coral. Os colegas diziam que eu só faltava montar uma cabana naquele espaço”, conta.

Mesmo com algumas limitações físicas, resultado de um acidente vascular cerebral (AVC) e da diabetes, que a obrigou a amputar quatro dedos do pé, Margô não se deixa abater. “Ando acompanhada da minha bengala e nada me para.” O último trabalho (ou passatempo) foi a participação na campanha da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para a Copa do Mundo, gravada na periferia do Distrito Federal. “O vídeo, intitulado ‘Manifesto Bate no Peito’, apareceu no horário nobre da tevê aberta, acredita? Os colegas da igreja celebraram e alguns parentes do Maranhão me ligaram para parabenizar”, diz a atriz.

Esta é a quinta e última reportagem da série Envelhecer é moderno, que traçou um diagnóstico sobre as transformações da população 60+ no DF em 2026. Após investigar os impactos na economia, os gargalos na saúde, os desafios da mobilidade urbana e as barreiras do etarismo, o Correio encerra a jornada celebrando o direito ao lazer e à cultura.

Diante de uma Brasília que muitas vezes isola sua população mais experiente, esta edição mostra como as atividades artísticas e de convivência são ferramentas de assistência social e resgate da saúde mental, provando que a criatividade e a paixão pela vida não se aposentam.

Durezas

Natural de Codó, interior do Maranhão, Maria Gorete passou os primeiros anos da vida nos berços compartilhados, mas solitários, de um orfanato da região. A “adoção”, aos 18, deu-lhe teto e alimento em troca de exploração. “Uma família rica da cidade me levou para trabalhar em sua casa, mas, apesar de eu fazer todas as atividades domésticas, não recebia salário. A recompensa, diziam, era permitir que eu estudasse”, recorda.

A pouca vida, já marcada pelo abandono, ganhou contornos desumanos com o racismo. “Falavam que eu era inferior por conta da minha cor e eu acreditava. Era a ‘negra da casa’. Segundo eles, ninguém jamais iria me querer. Cheguei até a apanhar”, revela. A fuga do cenário de horror ocorreu em 1977, quando um tio distante, funcionário do Senado, trouxe-a para Brasília. “Morei em várias casas e passei por muita dificuldade. A discriminação também não deu trégua”, acrescenta.

Aqui, continuou os estudos e foi aprovada no concurso da antiga Telebrasília, onde trabalhou como telefonista por 30 anos. Nesse meio tempo, casou e teve uma filha, Anna Rosa — sua maior incentivadora. O relacionamento, porém, foi marcado pela agressividade do ex-companheiro. “Ele não me batia, mas me humilhava diariamente. A violência era psicológica. Por isso, tive dificuldade em conseguir me separar. Levei anos até ter coragem de pedir o divórcio”, conta, com a voz embargada.

Bem-vividos

Foi Anna Rosa quem motivou Maria Gorete a voltar à ativa após ser aposentada por invalidez devido ao AVC. No Grupo Mais Vividos (GMV) do Sesc (atualmente Sesc + Vividos), ela ganhou autonomia, amigos e reconhecimento. Qualidade de vida. “Hoje, vivemos em casa eu, Deus e Bento, meu cachorro. Quando preciso, minha filha e meus três netos estão sempre por perto”, completa, acrescentando que recentemente também ganhou uma bisneta.

A virada de chave na vida de pessoas 60+, como Maria Gorete, vai ao encontro das diretrizes de assistência social do Sesc-DF. De acordo com a gerente adjunta da área na instituição, Thayane Duarte, o lazer em grupo atua de forma direta na saúde física e emocional, funcionando como um contraponto ao isolamento, ao luto e ao afastamento social que muitos manifestam ao procurar as unidades.

Atualmente, o programa Sesc + Vividos atende, em média, 1,5 mil idosos por meio de oficinas semanais gratuitas, eventos e projetos de turismo social com valores acessíveis. “Garantir o direito ao afeto, ao lazer, à convivência e à participação social significa reconhecer a pessoa idosa como sujeito de direitos, desejos, histórias e pertencimento comunitário. Envelhecer com dignidade também passa pelo direito de rir, criar vínculos, circular pela cidade, ocupar espaços culturais e continuar pertencendo socialmente”, afirma Thayane.

Dedicação

Nos palcos, na tevê, nos outdoors e nas paradas de ônibus… Maria Gorete está em todos os lugares. A ideia do nome artístico, inclusive, se deu durante uma das campanhas publicitárias que fez. No set de filmagem, ela virou Margô Lima.

Entre os trabalhos em destaque estão a propaganda em defesa da vacinação, do governo federal; o comercial sobre o programa Bolsa Família; a publicidade referente à prevenção à dengue, pelo GDF; e a campanha “O que é ser brasileiro raiz?”, do Ministério dos Povos Indígenas. Como figurante, participou de ao menos quatro filmes: Capitão Astúcia, O Pastor e o Guerrilheiro, Colmeia e Parede.

“Com o tempo, fui sentindo mais segurança na atuação. No começo, a gente fica com medo de errar, esquecer as falas ou receber críticas. Bate o nervosismo. Mas, recebendo direitinho as orientações, ‘vestimos a camisa’ e damos o melhor. Quando fazemos o que gostamos, fazemos muito bem”, resume. Para ela, a magia do teatro está em viver personagens inimagináveis. “No palco, podemos ser vários. E interpretamos com o intuito de transmitir alegria, emoção e conhecimento ao público”, explica.

O carinho pelo canto é ainda mais forte e tem raiz na infância. “Quando eu morava no orfanato, durante todo o mês de maio, aconteciam as ladainhas noturnas para Nossa Senhora. Eu participava ativamente e conduzia os cantos”, recorda Margô. A memória mais marcante daquela época, porém, divide-se entre a devoção e a rejeição.

“A minha única tristeza era, no dia 31, data da coroação, quando montavam um altar muito bonito e aberto ao público: lá no topo, colocavam uma menina loira, de olhos verdes, para coroar a santa, enquanto eu era deixada atrás do altar, apenas cantando.”

O episódio, enfrentado em silêncio, foi ressignificado. “Aquilo era humilhante para mim, mas eu fazia pela fé, sabendo que o meu canto beneficiava as pessoas. No fim, tudo o que fazemos tem um porquê. Essa vivência me impulsionou a continuar, tanto no teatro quanto no coral, e hoje sou profundamente apaixonada pelos dois”, celebra.

Ser reconhecida pelas ruas de Brasília após uma vida marcada pela invisibilidade confere à maturidade de Maria Gorete o seu significado mais profundo. Ao contemplar a própria jornada artística e o impacto de suas conquistas, Margô resume a emoção de finalmente se enxergar como a protagonista da sua história. “Quando vejo minha imagem em algum local público, fico com vontade de chorar. Acho que Deus tem me abençoado bastante, porque hoje me sinto alguém. Tenho orgulho de mim mesma.”

*Estagiária sob a supervisão de Tharsila Prates

Fonte Correio Braziliense
Foto: Reprodução/CBF