Entre Tereza e Brasília, Waleska Barbosa faz da escrita um ato de presença

No Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra (25/7), escritora destaca o protagonismo de mulheres negras na história e na cultura do DF

Ao perceber que quase não encontrava outras mulheres negras ocupando espaço na cena literária do Distrito Federal, a escritora e jornalista Waleska Barbosa decidiu procurá-las uma a uma. Dessa busca nasceu o Encontro das Pretas que Escrevem no DF, iniciativa que hoje reúne autoras da capital e sintetiza a luta que marca o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, celebrado neste sábado (25/7).

Há mais de duas décadas vivendo no Distrito Federal, a jornalista e escritora paraibana Waleska Barbosa construiu uma trajetória marcada pelo compromisso de registrar histórias que, por muito tempo, permaneceram à margem da narrativa oficial.

Autora de Que o nosso olhar não se acostume às ausências e Ipês não são domesticáveis, além de idealizadora do projeto Julho das Pretas que Escrevem no DF, ela afirmou que a própria caminhada como escritora começou a partir da percepção de um vazio.

“Eu me senti ali nessa solidão, nessa busca, erros, acertos, tentativas. E também fui vendo que as coisas aconteciam quando eu encontrava apoio nessa força no outro, nesse aquilombamento”, lembra. Depois de publicar o primeiro livro, veio a pergunta que daria origem ao movimento criado em 2021: “Onde estão as outras mulheres pretas que escrevem no DF?”.

A busca reuniu autoras espalhadas pelo Distrito Federal e revelou que elas existiam, mas permaneciam fora dos principais espaços de circulação literária. “Em feira do livro, eventos literários daqui e muitos outros, a gente não tava ali colocadas, convidadas e vistas. Ainda continuávamos nessa invisibilidade”, afirma.

Mesmo reconhecendo que a mudança ocorre lentamente, Waleska vê resultados concretos. “É um trabalho de formiguinha e eu vejo dando tantos frutos.”

A cidade além dos monumentos 

Para a escritora, recuperar a presença das mulheres negras na história de Brasília é uma forma de ampliar a compreensão sobre quem realmente construiu a capital. Ela observa que a memória da cidade ainda privilegia figuras como políticos e arquitetos, enquanto invisibiliza trabalhadores e trabalhadoras que participaram da sua formação.

“A própria história de Brasília exclui a população negra. As fotos de JK, dos arquitetos, elas não trazem quem foram as pessoas que construíram a cidade”, diz. Segundo ela, iniciativas como as pesquisas da historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto abriram caminho para recolocar essas trajetórias no centro da narrativa.

Essa preocupação também orienta sua produção literária e jornalística. “A minha matéria de trabalho, de vida, de inspiração, é enxergar o que a gente é levada a não enxergar por causa do racismo.”

Brasília como descoberta 

Foi justamente na capital federal que Waleska afirma ter compreendido plenamente sua identidade racial. Recém-formada, chegou ao Distrito Federal no início dos anos 2000 em busca de oportunidades profissionais, mas encontrou experiências marcadas pelo preconceito.

“Aqui eu sempre digo que eu me descobri negra”, relata. Entre os episódios que marcaram essa trajetória, ela recorda uma situação vivida em um restaurante da Asa Sul, quando percebeu que era a única pessoa da mesa que não recebia atendimento dos garçons. Ao questionar a situação, ouviu do gerente que os funcionários haviam sido orientados a ter “cuidado” quando “pessoas assim” estivessem no local.

“Esse ‘assim’ veste o corpo da maioria da população do Brasil, que é ser uma pessoa negra”, recorda. Para ela, episódios como esse transformaram a forma de compreender a própria identidade e também impulsionaram sua atuação como escritora e jornalista. “Brasília me trouxe essa descoberta, mas também a possibilidade de incidir sobre isso.”

De Tereza de Benguela à presença das mulheres negras

Ao relacionar a data celebrada neste sábado com a realidade brasileira, Waleska destaca que Tereza de Benguela representa um legado que ultrapassa a homenagem simbólica. “Tereza de Benguela é esse nosso símbolo, de uma mulher que hoje tem um dia para homenageá-la, para que a gente conheça e reconheça a nossa história, os passos de quem veio antes.”

Ela avalia que, embora a presença de mulheres negras em espaços de decisão tenha aumentado, ainda há um longo caminho para que essa ocupação deixe de ser exceção. Citando uma reflexão da escritora Ana Maria Gonçalves, Waleska defende que o desafio não é apenas garantir representatividade, mas assegurar presença efetiva.

“Alguma coisa não tá certa quando a gente não vê pessoas negras, mulheres negras ocupando espaços que elas estariam ou estão prontas para ocupar”, afirma.

No Distrito Federal, onde está sediado o Congresso Nacional e são tomadas decisões que impactam todo o país, ela acredita que o Julho das Pretas amplia o debate sobre igualdade racial e aproxima essas pautas dos espaços de poder.

“Não nos acostumar às ausências e poder agir na nossa própria vida, nas nossas falas, no nosso trabalho, no supermercado. Onde a gente tiver poder, sempre ter esse olhar pela igualdade racial, um olhar pelo fim do crime do racismo e um olhar de luta, mas de alegria e de bem viver.”

Fonte Correio Braziliense
Foto: Gilberto Soares (Giba)/Material cedido ao Correio