Na Quadra F do Setor Habitacional Sol Nascente, a Casa 11 revela um universo de transformação logo na entrada. Na parede, o grafite estampando a célebre frase de Nelson Mandela sintetiza o espírito do local: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”. É ali que funciona a Associação Despertar Sabedoria no Sol Nascente (ADSSN), um projeto sem fins lucrativos que oferece aulas de reforço escolar, incentivo à leitura — a partir de oficinas lúdicas e com uma biblioteca comunitária — e acolhimento para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Na instituição, as carteiras ocupam a garagem, voluntárias se mobilizam na cozinha para preparar os lanches e as salas se dividem entre uma brinquedoteca e a biblioteca Despertando Educação. Em uma das tardes de atividades, crianças reunidas em duas mesas dividiam lápis e papéis para escrever cartinhas ao Papai Noel. Uma delas era Heloísa Aparecida, de 7 anos. Concentrada, ela desenhou os jornalistas do Correio enquanto conheciam o espaço e contou, com encantamento, já dominar a escrita cursiva. “Quanto mais aprendo, mais quero estudar. Gosto de ler e quero ser bombeira quando crescer”, disse a pequena.
À frente da instituição está a pedagoga e educadora física Paloma Mel, 32, que atua como diretora-presidente e cofundadora da ADSSN. Filha da pedagoga e assistente social Margarida Minervina, 54 anos, idealizadora do espaço, Paloma cresceu na comunidade e acompanhou a transição do Sol Nascente de uma área de chácaras sem infraestrutura para um território urbano com alto déficit educacional. Mesmo tendo buscado oportunidades fora para estudar e trabalhar, suas raízes a mantiveram vinculada ao projeto, transformando a própria trajetória em um espelho para a comunidade.Play Video
“A associação surgiu de iniciativas da própria comunidade, porque faltavam muitas coisas, de saneamento a escolas. Ou seja, a mobilização em torno da educação se deu a partir de nossas próprias necessidades”, explicou Paloma. Atualmente, mais de 50 crianças e adolescentes são acompanhados semanalmente pelo projeto, que conta com cerca de 20 voluntários. Para além das matérias tradicionais, a proposta pedagógica busca despertar o prazer pelo aprendizado por meio do lúdico e do repertório cultural.
“O principal desafio é mostrar para eles (crianças e adolescentes) a importância dos estudos. A educação pode ser divertida, interessante e usual no dia a dia. Então, temos lousas de desenho, massinha, quebra-cabeça, jogos pedagógicos no computador. Os mais velhos têm liberdade de discutir e trazer propostas. Tentamos levá-los ao cinema, a livrarias e a pontos turísticos de Brasília. Isso também é educação. Isso transforma”, detalhou a diretora.
O poder da biblioteca
Essa caminhada de transformação ganhou um novo capítulo nesta semana, com a visita da ministra da Cultura (MinC), Margareth Menezes, e do diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do MinC, Jéferson Assumção, à Biblioteca Comunitária Despertando Educação. Ali, eles oficializaram a entrega de 600 novos livros de literatura infantil e infantojuvenil, viabilizados via Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) em parceria com o Ministério da Educação. A ação também marcou o reconhecimento oficial do espaço como integrante do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP).
A ministra Margareth Menezes reforçou a relevância da iniciativa para a autonomia local. “As bibliotecas comunitárias são importantes por serem ações da própria sociedade civil. É um ponto de luz que traz esperança. E, reconhecendo e trazendo essa biblioteca para o SNBP, o Despertando Educação passa a receber acervos continuados. Com a renovação desse material, atraímos novos leitores”, declarou.
Com os novos livros, o acervo do Despertando Educação totaliza mais de 1.200 obras. “Os exemplares entregues hoje contemplam o primeiro ciclo de literatura infantil, ou seja, são voltados a crianças menores, maioria na associação. O objetivo é desenvolver a cultura da leitura. Após possibilitar o acesso, a gente qualifica o espaço e aproveita esse potencial vivo da própria comunidade, que é o desejo de ‘fazer acontecer'”, destacou Jefferson Assunção.
A roda dos monitores
O fortalecimento do acervo ganha vida na prática cotidiana do Despertar Sabedoria, no qual os próprios adolescentes atendidos pela instituição assumem o papel de monitores, auxiliando os mais novos nas tarefas escolares e na mediação de leitura aos sábados. A estrutura incentiva a autonomia e a troca de experiências entre gerações.
A estudante Rafaela Machado, 18, frequenta o espaço desde a infância e hoje atua como voluntária ao lado da mãe. “Eu entrei aqui pequenininha e aprendi muita coisa. Tenho vício de ler por causa deles (a ADSSN), que me incentivam muito. Eu pego emprestado aqui e leio. A associação ajuda muito as pessoas a transformarem suas trajetórias”, contou Rafaela, que conseguiu um estágio no Senado Federal com o incentivo da associação e se prepara para cursar engenharia mecânica.
Josué Rodrigues, 13, viveu um processo semelhante. Ao chegar ao projeto, com dificuldades de aprendizagem na escola regular, encontrou o apoio necessário para se alfabetizar e aprender inglês. Hoje, retribui o aprendizado auxiliando crianças como a pequena Heloísa. “Ensino a mesma coisa que ensinaram para mim e sinto muita satisfação nisso”, relatou.
A retribuição dos jovens é vista por Margarida Minervina como o indicador mais valioso da iniciativa, principalmente porque a maioria das voluntárias — como ela — é formada por mães solo que encontraram nas adversidades a força para erguer um espaço de acolhimento para mais de 50 famílias. Anos mais tarde, foi sua determinação que a permitiu formar-se em pedagogia depois dos 40. Virou inspiração para Paloma.
“É gratificante ver os resultados, com eles se formando e ajudando outros. Esse é o nosso pagamento. Às vezes olhavam para mim e me criticavam por esse trabalho. Diziam que eu estava cuidando de meninos sem futuros. Mas são esses mesmos jovens que hoje estão brilhando por aí”, orgulhou-se Margarida.












