A casa de Francisca Almeida da Silva, 70 anos, talvez fosse uma das mais simples da rua onde ela morava em Samambaia Sul. Mas era um lar marcado pela compaixão. A aposentada dedicou a vida ao cuidado com os outros. Ajudava crianças, pessoas em situação de rua e presos recém-liberados. Foi essa disposição para acolher quem precisava que a aproximou de Leonardo Ferreira de Almeida, detento beneficiado pela saída temporária, na última quinta-feira, e tratado por ela como um familiar. Pela mesma porta por onde tantos entraram em busca de ajuda, Leonardo entrou para matá-la.
Mãe de seis filhos e de uma listagem numerosa de netos e bisnetos, Francisca não deixava que os graves problemas de saúde a impedissem de visitar o filho preso no Complexo Penitenciário da Papuda. O preparo dos itens para levar ao familiar na cadeia, o deslocamento e o cansaço perduraram por mais de 10 anos. As visitas não se restringiam apenas ao contato com o filho. A aposentada aproveitava para ouvir histórias de outros custodiados e acolhê-los.
Sensibilizou-se com a de Leonardo e, como uma mãe, ignorou a vida pregressa dele, que responde por dois homicídios — um consumado e outro tentado — e dois estupros. Sem residência no Distrito Federal e de família goiana, Leonardo estava prestes a ganhar o benefício semiaberto, com direito às saídas temporárias. Ela se comoveu e ofereceu o próprio endereço para Leonardo.
Não era a primeira vez. Registros fotográficos mostram Leonardo ao lado de Francisca e de parentes dela em uma festa de Natal organizada pela aposentada. “Amo vocês”, escreveu ele em uma publicação nas redes sociais.
Acomodação
Francisca ofereceu a Leonardo um barraco nos fundos da casa dela. O pequeno imóvel, com sala, um quarto e banheiro, era suficiente para acomodar uma pessoa e incentivar quem deseja recomeçar a vida.
Na última quinta-feira, Leonardo foi um dos 1.520 presos liberados pela Justiça para o quinto saidão do ano, o do Dia dos Pais. Deixou o Centro de Internação e Reeducação (CIR) rumo à casa de Francisca. “Durante o dia, ele saía e passava o dia fora. Até para a casa de parentes, em Goiânia, ele foi, mas sempre voltava antes das 18h por causa da fiscalização da Polícia Penal”, disse Francivânia Almeida, 50, uma das filhas de Francisca.
Francisca chegou a fazer compras para Leonardo ter o que comer ao chegar. “Minha mãe ajudava a todos. Eu até a alertava sobre os cuidados, mas ela dizia que tinha de fazer o bem sem olhar a quem. E assim o fez.”
Francivânia relembra a última conversa com a mãe. Por mensagem, falaram sobre uma consulta marcada para a manhã de ontem. Francisca brincou: “Talvez seja a última vez que a gente conversa”. Segundo a filha, ela costumava fazer esse tipo de brincadeira. Pela manhã, a filha ligou para a mãe por mais de uma vez, mas sem sucesso. De volta, recebeu um telefonema de uma sobrinha. “Tia, acho que minha vó está morta”.
O crime
O passo a passo do crime é investigado pela 32ª Delegacia de Polícia (Samambaia Sul). Mas as investigações preliminares indicam que Leonardo, entre a madrugada e a manhã de ontem, dopou Francisca e as três jovens que estavam com ela — duas são netas e a outra é amiga das meninas. Desconfia-se de que a substância usada tenha sido o próprio medicamento de Francisca, mas em uma alta dosagem e que a polícia ainda não sabe precisar.
A família suspeita que Leonardo tenha aplicado uma dose grande de insulina, o que ocasionou a morte de Francisca. A perícia do corpo da idosa ainda não foi concluída e dará informações mais detalhadas da morte da mulher após a finalização do procedimento.
A casa onde Leonardo teria cometido os crimes ficou totalmente revirada. O imóvel é dividido em cinco cômodos e o barraco no fundo do lote que Francisca tinha cedido ao homem. Na parte de trás, a perícia localizou bitucas de cigarro, restos de cigarros de maconha e diversos frascos de medicamentos. Na parte principal da casa, onde as jovens foram dopadas, amarradas e estupradas, a polícia encontrou gravatas que foram usadas para amarrar as vítimas e um sutiã sujo de sangue. Na mesa da cozinha, também havia outros medicamentos.
Ainda na casa, pedaços de corda retirados da rede no quintal foram encontrados, o que sugere que as vítimas tenham sido amarradas. Depois de dopar as quatro e com a idosa já morta, Leonardo abusou sexualmente das três jovens. Um vídeo obtido pelo Correio mostra o momento em que Leonardo sequestra uma das vítimas utilizando um transporte por aplicativo. Após os estupros, ele levou a jovem de 19 anos até o Morro da Cruz, região de São Sebastião, e a abandonou na região. A vítima foi encontrada ensanguentada e com diversos ferimentos pelo corpo. Após a localização, ela foi encaminhada ao Instituto Médico Legal (IML) para passar por exames de corpo de delito.
O corpo de Francisca foi encontrado no barraco dos fundos. O crime foi descoberto graças a uma das netas de Francisca, que acordou, encontrou o corpo da avó e correu para pedir ajuda a um vizinho. Depois disso, a polícia chegou e isolou o local.
Comoção
A rua foi tomada por familiares, amigos e pessoas “socorridas” por Francisca. Uma delas é uma mulher. Em lágrimas, ela narrou o momento difícil que enfrentou. “Eu estava com problemas de aluguel e a dona Francisca ofereceu o barraco de graça para eu morar. Fiquei um ano. Em tudo ela me ajudava”, relatou.
Os filhos de Francisca também herdaram a bondade da mãe. Mas, agora, perguntam-se como seguir adiante nessa missão. “Também cuido de pessoas. Agora, como você vai cuidar de pessoas assim? Como vai fazer isso com uma ferida dessa no coração? Nunca imaginei que ele fosse fazer isso com minha mãe”, desabafou Francivânia.
Na tarde de ontem, as forças de Segurança do DF montaram uma força-tarefa para localizar Leonardo. As buscas mobilizaram policiais militares, civis e penais.
Segundo apurado pelo Correio, Leonardo cumpria pena no regime semiaberto no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) por crimes de homicídio e estupro. A polícia pede que quem tiver informações do acusado pode ligar para os números 197 ou 190. Até o fechamento desta edição, ele ainda não havia sido localizado.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Cedido ao Correio











