Brasília: cidade acolhedora

Refugiados encontram na capital federal o apoio necessário para reconstruir a vida fora do país de origem

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Entre muitos atributos, Brasília também é conhecida pela capacidade e diplomacia para receber e reunir povos de diferentes lugares do Brasil e do mundo. São 133 embaixadas sediadas na cidade, o que a torna a segunda maior capital do mundo em número de representações diplomáticas – perdendo apenas para Washington, nos Estados Unidos. Nesse contexto, o desempenho de Brasília vai além e passa a expressar também o acolhimento a refugiados.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), os refugiados “são pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados”.

No Brasil e na capital federal, a maior quantidade de refugiados vem da Venezuela, país vizinho que se tornou instável social e economicamente nos últimos anos. A preocupação humanitária no país é alta, uma vez que cerca de 51,9% dos venezuelanos são considerados pobres de acordo com a Pesquisa Nacional de Condições de Vida (Encovi) da Venezuela, realizada em 2023.

Desde 2017, o Brasil realiza a Operação Acolhida acolhendo venezuelanos em situação de vulnerabilidade. Nos últimos seis anos, foram contabilizados mais de 950 mil refugiados recebidos do país vizinho apenas pela operação em questão. Em Brasília, desde 2022, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) atende a 534 famílias venezuelanas com um ou mais integrantes – este é o maior grupo de refugiados sob os cuidados da pasta no Distrito Federal.

Ao todo, a capital acolhe 806 refugiados vindos de 48 nações diferentes. Em seguida aos acolhidos da Venezuela no DF, estão os refugiados vindos de Cuba, com 45 famílias, e Haiti, com 36. Na quarta e na quinta colocação estão aqueles vindos da Colômbia e do Afeganistão, com 24 e 23 famílias, respectivamente.

Acolhimento gastronômico

Um dos venezuelanos refugiados na capital é Jhonny Suarez, que chegou a Brasília em fevereiro de 2020, um mês antes da pandemia de covid-19. Ele mora no Varjão e vende marmitas todos os dias, de domingo a domingo, de 10h30 às 14h, em um ponto próximo ao Centro Educacional do Lago Norte. Debaixo de uma estrutura de tendas e uma churrasqueira construída com tambores de latão, Jhonny reconstroi a vida em Brasília.

Ele veio diretamente para a capital a convite do cunhado – também venezuelano, refugiado na cidade há pelo menos dois anos – que compartilhou uma melhor qualidade de vida frente às dificuldades vividas no país de origem. E assim, Jhonny chegou com a esposa, dois filhos e o genro para tentar a vida na capital federal.

“Foi difícil porque eu estava sem trabalho e lá na Venezuela não tinha como arrumar um trabalho bom para a gente sobreviver lá. E aí tomamos a decisão de mudar para o Brasil. Depois que viemos, a situação foi melhorando”, compartilhou. Ao chegar na cidade, teve o apoio das instituições do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), braço humanitário do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), e do GDF para alinhar a documentação.

Em Brasília, a família recebeu auxílio com comida e acomodação iniciais. Não demorou para Jhonny conseguir o primeiro trabalho como ajudante de pedreiro, com o qual conseguiu sustentar a estadia enquanto acertava a documentação e tentava estabilizar a situação financeira da família. Após um ano no emprego em questão, passou a vender as marmitas que comercializa atualmente.

Ainda na Venezuela, de acordo com ele, a venda autônoma de marmitas e de frango também era o que sustentava a família no país de origem, mesmo que de maneira limitada. Desde quando chegou a Brasília, Jhonny tinha a expectativa de abrir um negócio no ramo da alimentação, trabalhando com a culinária, como o faz atualmente.

“No começo foi difícil, mas aqui é muito melhor”, disse. “A situação era complicada e vinha piorando [na Venezuela] e não dávamos mais conta de ficar lá. Conseguimos arrumar um dinheiro para vir e foi muito bom. Deus esteve no controle dando ideias e temos uma estabilidade melhor agora”, afirmou. Além da mudança completa de vida, a vinda para Brasília também foi marcante para a família por ser a primeira vez em que viajaram de avião.

De início, Jhonny e a esposa vendiam as marmitas de maneira mais simples, com o que conseguiam para começar o trabalho. Do Varjão, ela empurrava um carrinho de compras com os materiais e alimentos e ele carregava a estrutura da churrasqueira de latão para o preparo das carnes até o mesmo ponto atual. O trabalho foi se desenvolvendo ao longo dos anos e hoje a família conta com um carro e uma carretinha para carregar, além do material anterior, a estrutura da tenda, mesas e cadeiras.

Com as vendas atuais e os clientes fieis – que aprovam e destacam a qualidade da comida – Jhonny tem condições de ajudar financeiramente a mãe e outra irmã, que ficaram na Venezuela.

“Nós gostamos muito de Brasília, porque tudo aqui é muito bonito. Tudo é muito organizado e a cidade é muito linda. Gostamos muito de ir na Água Mineral para tomar banho de piscina e fazer caminhadas ao ar livre. Meus parabéns a cidade e que Deus abençoe a todos aqui, porque a cidade é muito bonita. Que possam cuidar bem da cidade”, parabenizou.

O sonho em Brasília é ter um restaurante próprio, alargando os negócios. “Vou continuar com a comida, vendendo o que o brasileiro gosta: o churrasco”, brincou. “Essa aqui [a venda das marmitas] é nossa maior conquista. […] As pessoas sempre passam falando que a comida é gostosa, que é boa”, finalizou.

Dignidade em Brasília

De acordo com a secretária de Justiça e Cidadania do DF, Marcela Passamani, receber os refugiados em Brasília é um dever da cidade como capital do país para oferecer os direitos humanos aos cidadãos internacionais. “É preciso respeitar e promover a dignidade humana e o protagonismo das pessoas migrantes e refugiadas, reconhecendo-as como sujeitos de direitos. O acolhimento aos refugiados é não apenas um ato de solidariedade, mas também um compromisso fundamental com os direitos humanos e a justiça social”, destacou.

Em favor destes ideais, a pasta ressalta que “trabalha pela diversidade e enxerga os refugiados como uma oportunidade para enriquecer nossa sociedade com suas experiências, culturas e talentos”. “Juntos, podemos criar um ambiente acolhedor e inclusivo para todos, independentemente de sua origem ou história”, afirmou Marcela.

A secretaria atua como um órgão de apoio à promoção dos direitos dos refugiados e, portanto, quando estes chegam com demandas à pasta, são encaminhados aos órgãos competentes com auxílio e direcionamento sobre os próximos passos na nova realidade de vida. A pasta destaca ainda a realização de atividades educativas voltadas à divulgação e à sensibilização de diferentes públicos sobre a temática do migrante, refugiado e apátrida no DF.

Referência em saúde

Projeto precursor da Operação Acolhida, a Organização Não Governamental (ONG) Fraternidade Sem Fronteiras (FSF) é uma das instituições que atuam em ações de acolhimento a refugiados venezuelanos no Brasil. Wender Moura Gomes, diretor adjunto de Relações Públicas e um dos fundadores da entidade, destaca que muitos dos refugiados, antes de serem encaminhados a outros estados acolhedores, são enviados a Brasília para terem acompanhamento médico pelo fato da capital ser referência de qualidade em saúde.

Conforme explicou, “o DF tem um papel muito importante porque tem uma rede hospitalar de referência”. “Quase todos os nossos irmãos são enviados para o DF. Há sempre pessoas com um maior cuidado na área da saúde. São várias mãos, braços e padrinhos no DF que acolhem”, afirmou o diretor da ONG. Padrinhos são voluntários que se colocam à disposição para auxiliar refugiados, recebendo-os em casa, ajudando com documentações, emprego, alimentação, estadia, entre outros.

Os padrinhos são, portanto, integrantes e muitos também são doadores da obra feita pela FSF. O próprio DJ Alok, brasiliense de coração que comandou a festa no centro de Brasília no último sábado (20) em comemoração aos 64 anos da cidade, também doou para a organização. “A dor do outro precisa ser algo que tira o sono. Se não enxergarmos que ele precisa de cuidado e auxílio, deixamos de ser humanos. Somos irmãos. Que não julguemos pela aparência, pelo estado, pelo país”, afirmou Wender.

O projeto FSF começou em 2009 e está presente em 10 países. Atualmente, aproximadamente 34 mil pessoas ao redor do mundo são alimentadas todos os dias graças ao trabalho realizado por voluntários nos países. A organização é a responsável por cerca de 1.500 pessoas venezuelanas acolhidas pelos centros especializados da Fraternidade no Brasil.

Por Jornal de Brasília

Foto: Divulgação / Reprodução Jornal de Brasília