Campanha Folia com Respeito vai às ruas contra o assédio e o preconceito

Blocos assinam carta-compromisso e se engajam na luta por uma celebração mais consciente e com respeito

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O combate ao racismo, à violência e ao assédio contra a mulher e a população LGBTQIAPN é o foco, este ano, da campanha Folia com Respeito, que estará presente os blocos de carnaval do Distrito Federal. Além disso, a ação trabalha pela promoção do autocuidado e do cuidado com o patrimônio, o apoio às vítimas, a garantia da acessibilidade e o zelo com a limpeza pública. A ação educativa começou em 2016, como resposta ao aumento das denúncias de violência nas celebrações de Momo, em Brasília.

“A campanha surgiu da necessidade de comunicação dos blocos com foliões que vão curtir o carnaval no seu território. Vimos uma lacuna que precisava ser sanada, por conta do aumento de público e do aumento da violência”, relembra Letícia Helena, criadora e coordenadora da Folia com Respeito. “Surgimos como uma campanha de criação de materiais de comunicação visual, mas fomos ampliando para outras ações que eram necessárias. Empatia foi o primeiro mote que trabalhamos. Muitas pessoas sofriam violência com testemunhas olhando e ninguém fazia nada”, acrescenta Letícia.A iniciativa tem fomento da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF). A realização é do Distrito Drag, em parceria com o coletivo Folia com Respeito, e apoio da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal (OAB-DF).Postos móveisNeste ano, a campanha terá material de divulgação para os blocos, dois postos móveis, e distribuição de água, lanches e preservativos. Os participantes farão também o monitoramento dos territórios em busca de pessoas que precisem de acolhimento.”O posto móvel é uma kombi com uma equipe treinada para fazer o acolhimento de vítimas. É um acolhimento empático, partimos da escuta. A pessoa que sofre assédio fica vulnerável, desestabilizada. Nosso atendimento é de diálogo. O posto conta com um celular para que as pessoas possam se comunicar e pedir ajuda”, explica Letícia Helena.A Folia com Respeito promove capacitação com produtores de blocos para que eles atuem como multiplicadores da campanha. “Fazemos treinamento com fornecedores também. São tratadas questões como a revista de pessoas trans e outras sensíveis”, detalha Letícia. “É importante falar sobre como a gente pode construir um território seguro e acolhedor”, enfatiza.No fim do carnaval, serão produzidos relatórios com os principais atendimentos das unidades móveis. “É uma forma de criar estatísticas. Os trabalhadores dos postos também fazem relatórios. Nossa equipe é plural e diversa, e buscamos também registrar preconceitos e violência sofridas pelas pessoas que estão conosco na campanha”, destaca Letícia.Transformação socialPara o secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Cláudio Abrantes, a campanha contribui para que haja um carnaval seguro para todos. “Queremos transformar as ruas em espaços de alegria, onde cada pessoa, independentemente de sua identidade de gênero, orientação sexual, raça ou qualquer outra característica, possa se divertir sem medo. Estamos empenhados em promover a igualdade, tolerância e a segurança”, salienta”A Folia com Respeito é um convite à reflexão sobre o significado do carnaval em uma sociedade que busca constantemente a evolução. Que essa campanha não apenas se traduza em ações pontuais, mas inspire uma mudança cultural duradoura, onde o respeito e a diversidade sejam celebrados em todas as festividades”, acrescenta.Advogada feminista interseccional antirracista, Larissa Guedes avalia a iniciativa como construtiva. “Reforça o compromisso com a construção de um carnaval festivo e, ao mesmo tempo, um agente de transformação social profunda, por ser um movimento que desafia as estruturas sociais, culturais e econômicas que perpetuam desigualdades de gênero e classe no país, ao se comprometer com a diversidade e promover o cuidado mútuo”, ressalta.Carta-compromissoA Folia com Respeito propõe aos blocos, organizadores, artistas e produtores a assinatura de uma carta-compromisso, por meio da qual se engajam na criação de um território seguro para o folião. O documento pode ser assinado on-line até 12 de fevereiro. O link está disponível no Instagram @foliacomrespeito.Para receber o selo da campanha, as iniciativas carnavalescas devem empreender esforços para um carnaval seguro, comprometendo-se a cumprir 10 critérios. Um deles é que organizadores ou responsáveis pela atração não podem estar respondendo por crime de violência contra a mulher, relacionado à LGBTQIFobia ou injúria racial. Além disso, representantes das atrações são incentivados a responderem publicamente, caso haja relato de violência durante o evento realizado, comunicando ao público o ocorrido e as providências que forem tomadas.Hino antipreconceitoO bloco das Montadas, que tem como tema “Priscila, a rainha do Cerrado” e sairá dia 11, às 10h, no gramado da Biblioteca Nacional, produziu um hino antipreconceito a partir das antigas marchinhas de carnaval: “O Pierrot se montou de colombina, o Arlequim está dando close de menina, lá na esquina, Zezé bate a cabeleira, será que ele é empoderado e babadeira? O abre-alas para descer até o chão sem preconceito, intolerância é na contramão”. “Pegamos as marchinhas que eram preconceituosas e fomos desconstruindo, chamando atenção para a necessidade do respeito”, afirma Ruth Venceremos, uma das fundadoras do bloco das Montadas e co-diretora do coletivo Distrito Drag.O Montadas é um dos 37 blocos que já assinaram a carta-compromisso da Folia com Respeito. “O público central do bloco é a comunidade LGBTQIAPN , um público marcado pela violência e pelo preconceito contra identidade de gênero e orientação sexual. Aderimos à campanha Folia com Respeito para que o público entenda que, não só no carnaval, mas ao longo do ano, é importante combater o preconceito e a violência”, ressalta Ruth.Vencedor do CB Folia por três anos seguidos, o bloco das Montadas está na expectativa para mais um ano. “O CB Folia é importante pelo reconhecimento. Nosso grande desafio é como nossa comunidade sai nos jornais. Quando um bloco LGBTQIA sai na imprensa campeão do carnaval, é uma representação positiva e uma das formas de combater o preconceito, com alegria e com diversão”, comemora Ruth Venceremos.Não é NãoEm dezembro de 2023, foi sancionada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva a Lei nº 14.786, que cria o Protocolo Não é Não, destinado a prevenir o constrangimento e a violência contra a mulher em ambientes nos quais sejam vendidas bebidas alcoólicas, como casas noturnas, boates e estabelecimentos para espetáculos musicais em locais fechados ou shows. De acordo com dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF), o número de importunações sexuais registradas no DF subiu 24% entre 2022, quando foram registrados 682 casos, e 2023, quando o número de casos subiu para 846.O coletivo nacional Não é Não atua contra o assédio em espaços públicos desde antes da sanção da lei que tipifica esse crime. “Chegar no primeiro carnaval com o protocolo Não é Não sancionado é muito gratificante e emocionante. Dá uma sensação de missão cumprida, de que estamos no caminho certo. É uma resposta da lei a um comportamento que foi banalizado por tantos anos, que é a importunação sexual”, comemora a CEO e cofundadora o coletivo Não é Não, Julia Parucker. Por Mila Ferreira do Correio BrazilienseFoto: Carlos Vieira CB/DA Press / Reprodução Correio Braziliense