Pets voluntários doam afeto a pacientes internados em hospitais

Cães visitam pessoas hospitalizadas, levando carinho, alegria, amor e esperança. Trabalho é desenvolvido por instituto, que seleciona os animais voluntários e os treinam para a missão

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Com a sua bandana roxa devidamente posicionada e cheio de energia, o vira-lata caramelo Grude entrou no Hospital de Apoio de Brasília (HAB) mobilizando a equipe médica. Não foram suas travessuras, porém, que chamaram atenção. Isso porque, além do atributo designado no nome, o cão levou carinho, leveza e alívio.

Proporcionar um tratamento mais humanizado nos hospitais do Distrito Federal, por meio do afeto entre os bichinhos e os pacientes, é a missão do Instituto Brasiliense de Intervenção Assistida por Animais (IBIAA). Com os pets treinados, os voluntários da ONG se dirigem às instituições, na tentativa de levar um pouco de conforto ao difícil cotidiano das internações.

O projeto está incluso nos princípios das chamadas Intervenções Assistidas por Animais (IAA), que visam proporcionar benefícios físicos, emocionais, comportamentais e cognitivos aos humanos, sempre considerando o bem-estar do pet. No IBIAA, os participantes promovem visitas informais, planejadas e orientadas, de forma lúdica, a três instituições: HAB, Hospital Universitário de Brasília (HUB) e Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib).

Coordenado pela médica veterinária Mariane Leão, 33 anos, o grupo conta com voluntários de diferentes profissões e atuações dentro do instituto, incluindo adestradores e psicólogos. “Nosso objetivo é que haja melhor aceitação do tratamento por parte dos pacientes, diminuição da dor, melhor relação entre funcionários e pacientes, conforme já foi relatado em inúmeras pesquisas”, explicou. O contato pode, ainda, gerar mudanças hormonais, diminuindo o hormônio do estresse e aumentando o do prazer.

Para Armando Moreira, 70, receber o carinho de um cão, em seu leito, é um respiro. Internado no HAB desde novembro deste ano, o aposentado vive com um câncer de esôfago em estágio avançado e sem a possibilidade de realizar cirurgia, em vista dos riscos. “Já tive cachorro, mas, depois que eles morreram, não quis mais. É uma perda muito sofrida. Mas ter esse contato, agora, me traz alegria”, relatou, enquanto acariciava Vanilla, uma lulu da pomerania.

Parte da família

Os cuidados paliativos do HAB visam exclusivamente aliviar os sintomas de doenças graves, como o câncer. Profissionais e familiares contemplam uma rede de apoio que busca levar conforto e qualidade de vida aos pacientes internados. “Os cães são parte da família, então, muitas vezes, eles (pacientes) recebem um ou dois dias de alta para ir em casa visitar seus pets. Sentem saudades”, relatou a assistente social Mariana de Souza, que trabalha no hospital há 13 anos.

Maria Janaina Ferreira, 30, recebeu os carinhos de Vanilla, que deitou, confortável, ao seu lado, na cama. “Não esperava por essa visita, mas amei”, disse. No corredor da instituição, Patrícia Eveline, 23, não deixou de notar a presença dos peludos e se arriscou na pergunta: “vocês podem levar os cachorros no quarto da minha mãe? Ela gosta muito de animais e sente falta da nossa Amora”. Grude e Vanilla partiram, então, para a próxima tarefa.

No leito do quarto, Maria Arcangela Lopes, 53, pôde se distrair dos procedimentos médicos pelos quais acabara de passar. Divertindo-se, apreciou o bom comportamento dos cães. “Olha ele sentado, tão educado”, comentou, aos risos. “Quem vê assim nem imagina que ela não queria, de jeito nenhum, cachorro em casa. Depois que adotei a Amora, ela se apaixonou”, recordou Patrícia.

No HUB, pacientes da ala psiquiátrica também receberam a visita dos cães voluntários. Dessa vez, a missão ficou por conta das labradoras Cissa e Magali. Segundo a enfermeira e pesquisadora Helena Moura, a maioria dos pacientes se dá muito bem com os cães. “Ainda não temos resultados definitivos que comprovem os benefícios emocionais dessa relação, porém, é visível que eles se sentem confortáveis, conseguem interagir mais e até compartilhar sentimentos”, contou.

Mariane Leão, que é presidente do IBIAA, cita que, até o momento, há pouquíssimos estudos voltados a analisar o bem-estar dos animais nessas situações. Porém, os comportamentos sutis dos cães demonstram ser um trabalho positivo não apenas para os humanos, mas também para eles. “As visitas duram cerca de uma hora e ocorrem, no máximo, duas vezes por semana. Sempre vamos observando a reação dos pets. Arfar, bocejar e lamber o focinho são indicativos de que eles estão cansados ou incomodados. Então, essa é a hora de encerrar”, detalhou a veterinária.

Como humanos e pets podem participar

Qualquer pessoa pode participar do projeto, sendo ou não tutora de cães. Os candidatos fazem um curso teórico e são submetidos a uma entrevista.

Já os cães são apresentados pelos tutores e participam de uma seleção, que consiste em um teste de comportamento, no qual são colocados em situações diversas, para apontar se têm as características adequadas — serem mansos, bem sociáveis com humanos e outros cães, gostarem de interagir com pessoas estranhas e terem resistência a barulhos diversos e lugares diferentes.

O porte dos animais é pensado para cada ambiente. No HAB, por exemplo, a preferência é pelos de pequeno porte, que facilitam as visitas em leitos.

Para serem efetivados no grupo, voluntários e pets passam por um processo de treinee e, só após três visitas, são incluídos no instituto.

Por Letícia Mouhamad do Correio Braziliense

Foto:  Minervino Júnior/CB/D.A.Press / Reprodução Correio Braziliense