Cabos eleitorais recebem a partir de R$ 40 para turbinar eventos de campanha em SP

Também há tarefas remuneradas para adesivar carros e telefonar para possíveis eleitores, convidando-os para entrar no grupo de WhatsApp

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Em meio à crise e a alta taxa de desemprego no país, políticos têm oferecido um salário mínimo ou, às vezes, R$ 40 por dia com direito a uma refeição para cabos eleitorais distribuírem santinhos e agitarem bandeiras nos eventos de campanhas.

Também há tarefas remuneradas para adesivar carros e telefonar para possíveis eleitores, convidando-os para entrar no grupo de WhatsApp do candidato. Já os cabos eleitorais que são proprietários de automóveis faturam quase o dobro por dia, R$ 80.

A relação não tem a segurança jurídica de um registro na carteira de trabalho e é costurada por um contrato de gaveta. A Lei Geral das Eleições define que a contratação de pessoal para atuarem exclusivamente nas campanhas não gera vínculo empregatício com o candidato nem com o partido.

Tais gastos devem ser declarados pelos candidatos ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) através da rubricas “atividades de militância e mobilização de rua”, mas também são listas como “despesa com pessoal” ou “serviços prestados por terceiros”.

Os coordenadores de campanha evitam dar detalhes sobre os valores oferecidos aos cabos eleitorais, inclusive quando abordados pessoalmente nas ruas.

Alguns até negam que trata-se de uma função remunerada e afirmam que as atividades são desempenhadas por militantes partidários ou voluntários que estão identificados com as propostas do político.

Na hora de recrutar, os gestores preferem lidar com pessoas já indicadas por conhecidos ou que trabalharam em eleições anteriores.

Por telefone, a reportagem acionou diretórios em São Paulo, mas na maioria das vezes foi orientada a enviar mensagem pelo WhatsApp demonstrando interesse e aguardar por uma proposta. Na sede dos Republicanos, do candidato Tarcísio de Freitas, o conselho é para que o candidato envie um currículo por email.

Na manhã fria de 16 de agosto, o primeiro dia do período oficial de campanha eleitoral, a desempregada Jéssica (nome fictício) contou à reportagem que ganharia R$ 40 e um lanche para caminhar e agitar bandeiras ao lado da deputada federal Joice Hasselmann (PSDB), candidata à reeleição, no centro de São Paulo.

O bico, como ela definiu, surgiu às vésperas da passeata, mas deveria se estender até o final do pleito.
A campanha de Joice, tida como uma das puxadora de votos, conta com uma receita de R$ 3,2 milhões –o montante é fruto de doação do PSDB. Ela é a candidata à Câmara que mais conta com dinheiro do partido.

Em sua prestação de contas ao TSE, Joice listou gastos de R$ 677 mil com despesas com pessoal e R$ 279 mil com atividades de militância e mobilização de rua. Na planilha, a tucana detalha o pagamento de R$ 1,5 mil para quem desempenha a atividade de mobilização e de R$ 3 mil a R$ 3,8 mil para os líderes de equipe.

Os valores ofertados aos cabos tendem a ser iguais entre os candidatos. Sem um piso, a referência mais utilizada é a de propor um salário mínimo por 30 dias trabalhados, isto é, R$ 40,4 ao dia.

O estafe do deputado estadual Delegado Olim (PP), que tenta se reeleger na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), formatou duas propostas, a de um salário de R$ 1,3 mil por mês (setembro) ou até R$ 880 para cabos contratados a partir do dia 10 de setembro.

Entre os candidatos ao Governo de São Paulo, a recompensa oferecida vai de R$ 45 ao dia a R$ 2 mil pelos 45 dias de campanhas, além da refeição e o transporte.

Os três candidatos ao governo mais bem avaliados pelas pesquisas, Fernando Haddad (PT), Rodrigo Garcia (PSDB) e Tarcísio, não detalharam em suas prestações de contas ao TSE, até o momento, nenhum débito com cabo eleitoral ou o serviço de mobilização nas ruas.

Outra modalidade de trabalho é a captação de eleitores através de ligações telefônicas e mensagens pelo WhatsApp.

Candidato à Câmara dos Deputados, o tucano Rossieli Soares, que foi secretário estadual de Educação na gestão João Doria (PSDB) e ministro de Educação no governo de Michel Temer (MDB), é um dos que investe neste filão.

Rossieli ofereceu, em um contrato de prestação de serviços, a quantia de R$ 1.251,40, incluindo despesas com alimentação e transporte.

Em troca, o cabo eleitoral trabalhará com o seu próprio celular e plano de telefonia, entre 2 de setembro e 1º de outubro, com “atendimento ao público e retorno às dúvidas” em relação a candidatura. A Folha teve acesso ao documento.

A desempregada Cleide (nome fictício), uma das contratadas por Rossieli, detalhou à reportagem como a rotina é diferente do combinado.

Um coordenador da campanha de Rossieli combinou, por telefone, que Cleide deveria fazer, pelo menos, 30 ligações por dia convidando o público a participar de lives com Rossieli e do grupo de WhatsApp “Amigos do Rossieli”, além de receber mensagens por SMS.

Os números de telefone dos possíveis eleitores foram entregues em uma planilha, e quase toda esta base de dados é formada de professores e diretores da rede estadual de ensino.

Na abordagem, Cleide também pergunta se há o interesse em receber o material impresso de campanha do tucano através dos Correios. Após a conversa, ela alimenta a planilha com as respostas.

Rossieli tem em caixa R$ 2 milhões para a corrida eleitoral e, desse montante, injetou R$ 159 mil com despesas com pessoal e atividades de militância.

Até quinta-feira (22), as candidaturas espalhadas por todo o Brasil desembolsaram R$ 1,061 bilhão com despesas com pessoal, R$ 456 milhões com serviços prestados por terceiros e R$ 342 milhões com atividades de militância e mobilização.

Por FolhaPress via Jornal de Brasília com informações de Sandra Barreto

Foto: Agência Brasil / Reprodução Jornal de Brasília