Mulheres russas escolhem Brasília para morar e construir novas memórias

Apesar das diferenças culturais e dificuldades com a língua e de adaptação, imigrantes escolhem a capital do país para morar e aqui constroem uma nova vida sem pensar em voltar ao país de origem

Em 2023, a viagem de lua de mel de Natália Gachukova e do marido, Andrey, mudou a vida da família. O casal, que vivia em Astracã, no sul da Rússia, próximo à fronteira com o Cazaquistão, decidiu iniciar o trajeto de carro, pela Turquia. Depois, seguiram pela Ásia Central e a região do Cáucaso, sem destino final definido.

No caminho, Mikhail, filho do meio de Natália e, na época, universitário em Moscou, decidiu se unir à mãe. A família recebeu o convite de uma amiga brasileira de Natália, residente no Distrito Federal, para que a visitassem e, desde então, não voltou mais ao país de origem. Ela, advogada, e ele, desenvolvedor de aplicativos na Rússia, vivem em Brazlândia, onde tocam o próprio negócio de confeitaria, vendendo doces típicos do leste europeu.

Oreshki, um biscoito recheado em formato de noz, e salame de chocolate são algumas das sobremesas soviéticas vendidas pela família. No futuro, eles planejam incluir doces da região do Cáucaso e da Ásia Central no menu. “Nós gostamos de oferecer comida para as pessoas, isso faz parte da nossa cultura”, conta Natália. 

Com cerca de 570 mil habitantes, Astracã recebeu, durante a história, influência de diversas regiões. Para Natália, esse fator foi fundamental para o trabalho que desenvolvem hoje no DF. “Há muitas centenas de anos, diferentes povos viveram juntos em Astracã: pessoas do Cáucaso, da Ásia Central, do Sudeste Asiático e da parte europeia da Rússia”, diz. “Durante nossa infância soviética em Astracã e também em nossas viagens, vimos e experimentamos muitos doces diferentes e incríveis. Queremos compartilhar esses sabores com os brasileiros.”

Além do fuso horário em relação à cidade natal, a família enfrentou dificuldades para encontrar novos empregos e de se adaptar à língua local. Natália já estudava português como hobby; Andrey e Mikhail aprenderam depois de chegarem ao Brasil. Hoje, a família não tem planos de voltar ao país de origem. 

“Atualmente, existem muitas restrições na Rússia para trabalhar remotamente a partir de outros países, então encontrar esse tipo de trabalho é uma grande sorte”, conta. “Fora isso, a vida aqui não é tão diferente do verão em Astracâ: é quente e há muitas frutas. Só é um pouco confuso o fato de o verão nunca acabar. Na Rússia, durante o inverno, a maior parte das frutas e verduras disponíveis é importada.”

Abertura a outras culturas

A chegada da professora de idiomas Yulia Mikheeva ao Brasil não começou pela capital. Natural de São Petersburgo, começou a carreira dando aulas de inglês e alemão. Depois, passou a ensinar russo e se tornou intérprete. Veio ao Brasil para trabalhar, morou por um ano em Salvador e, depois, chegou a Brasília. Em um relacionamento com um brasileiro mora no país há 18 anos e, atualmente, mora na Asa Norte.

“Achei, claro, muito diferente, mas como sou uma pessoa cosmopolita, que viaja muito, gosta de estudar línguas, já estava preparada para esse tipo de choque cultural”, conta. “Os brasileiros são tão receptivos que eu me senti super acolhida. Eu sou muito mais brasileira, acho, do que russa.”

Desde 2012, Yulia administra a própria escola de línguas em Brasília. O negócio, que começou presencialmente na cidade, migrou para a internet depois da pandemia. Além disso, há oito anos, leciona russo no Instituto Rio Branco, escola diplomática brasileira. “Está sendo uma colaboração incrível, porque, para mim, eles são os melhores alunos. Já falam várias línguas, têm muito interesse por idiomas, se dedicam e empolgam muito. Isso é gratificante para um professor”, afirma. “Acaba me tornando uma profissional, porque me esforço para proporcionar experiências não somente linguísticas, como também históricas.”

Yulia ressalta que, embora os russos pareçam fechados, têm muitas semelhanças com os brasileiros. “São muito divertidos também, gostam de festa. Parecem mais sérios e fechados, mas quando se conhece a pessoa, você percebe que tem muita coisa em comum”, pondera.

Mudança de vida

Tatyana Kovaleva mora em Brasília desde o final de 2008. Cresceu em Novosibirsk, na Sibéria, terceira maior cidade da Rússia, e se formou em engenharia eletrônica. Lá, conheceu um brasiliense que participava de um intercâmbio profissional numa empresa russa e, iniciado o relacionamento, veio com ele ao Brasil. 

“Acabou que eu não vim para o Brasil com um grande plano de imigração. Vim por uma circunstância pessoal e, aos poucos, transformei uma mudança que, inicialmente, não era um projeto de vida em uma nova vida inteira”, conta.

A trajetória profissional de Tatyana se alterou completamente com a vinda ao Brasil. Passou a trabalhar como tradutora e a estudar para concursos. Foi assim que percebeu uma aptidão para o direito, área em que fez uma segunda graduação na capital — estudou ainda letras na Universidade Católica de Brasília. 

Hoje, Tatyana mora no Lago Norte, é servidora da Terracap, tradutora e advogada. “Atendo clientes de diferentes partes do Brasil, principalmente estrangeiros e, em especial, russos que precisam compreender e resolver questões jurídicas no Brasil”, diz. “Estou em processo de credenciamento como tradutora pública e intérprete comercial de russo. É uma área que continua fazendo parte da minha identidade profissional, e que mantém uma conexão muito forte com minhas origens.”

Para ela, o maior choque foi perceber que precisaria reconstruir a vida inteira em um país que conhecia apenas o então marido, amigos e a família dele. “Eu precisava aprender a me comunicar, entender a cultura, encontrar trabalho e construir uma rede de contatos praticamente do zero”, afirma. 

Além de diferenças como clima e alimentação, Tatyana precisou se adaptar à forma como os brasileiros se relacionam — para ela, os brasileiros conseguem se aproximar de forma mais rápida que os russos. “Claro que os primeiros anos foram difíceis, porque construir uma vida em outro país exige muita adaptação e muita disposição para recomeçar”, explica.

“Hoje, quando penso no Brasil, não penso mais como alguém que está ‘morando fora’. É aqui que construí minha carreira, minha família, minhas amizades e minha história. O Brasil deixou de ser o país para o qual eu vim e se tornou o país onde eu escolhi ficar.”

*Estagiária sob supervisão de Márcia Machado

Fonte Correio Braziliense
Foto: Carlos Vieira CB/DA Press