Quem matou Ana Lídia? Falhas da polícia, suspeitos influentes e impunidade

Falhas na investigação, censura da ditadura, a morte dos únicos julgados e de outros suspeitos que nunca foram a julgamento selam meio século de impunidade na capital

Na jovem e pacata Brasília de 1973, sob o regime da ditadura militar, o desaparecimento e o brutal assassinato de Ana Lídia Braga, de 7 anos, expuseram não apenas as fragilidades de uma cidade em construção, mas também o peso do aparelho estatal sobre as apurações. A morte do irmão da criança, Álvaro Henrique Braga, em 25 de novembro do ano passado, tornada pública nesta quarta-feira (16/9), reacende uma pergunta: quem matou Ana Lídia? Em meio a investigações marcadas pela ausência de coletas de provas, checagem de álibis e suspeitas que alcançaram filhos de figuras influentes do regime, o caso foi sufocado e, 53 anos depois, segue sem um desfecho. 

Na tarde de 11 de setembro de 1973, por volta das 13h50, a rotina pacata e jovem de Brasília foi interrompida pelo desaparecimento de Ana Lídia Braga, de apenas 7 anos. A filha caçula dos servidores públicos Álvaro Braga e Eloyza Rossi Braga foi vista pela última vez na porta do Colégio Madre Carmen Sallés, na L2 Norte. 

Testemunhas relataram, à época, que um homem alto, magro, de pele e cabelos claros, vestindo calça marrom, havia levado a menina. Quando a funcionária da família chegou para buscá-la no fim da aula, recebeu a notícia de que a aluna sequer havia entrado na sala de aula.

As buscas começaram logo após os pais e as autoridades policiais serem notificados. A família chegou a receber dois telefonemas com pedidos de resgate, mas o desfecho trágico veio na manhã seguinte, em 12 de setembro. O corpo da criança foi localizado em uma valeta entre a Avenida das Nações e a Universidade de Brasília (UnB). Nua, coberta por terra e com os cabelos cortados rente ao couro cabeludo, Ana Lídia apresentava marcas severas de violência física e sexual. Os laudos periciais indicaram que a morte ocorreu por volta das 6h daquela mesma manhã.

O inquérito policial instaurado para apurar o crime concentrou as suspeitas em duas figuras centrais: Álvaro Henrique Braga, irmão da vítima, e Raimundo Lacerda Duque. Na época com 18 anos, Álvaro era estudante e, segundo a polícia, devia a traficantes — tese utilizada pela investigação para sustentar que o sequestro visava ao pagamento de dívidas. O jovem permaneceu preso por mais de um ano durante a instrução do processo e sempre negou o crime. Seus pais nunca acreditaram no envolvimento dele. 

Raimundo Lacerda Duque, então com 30 anos, era funcionário da Novacap cedido ao Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp), onde trabalhava sob a subordinação direta da mãe de Ana Lídia. Conhecido pelo envolvimento com entorpecentes, Duque fugiu assim que entrou no radar dos investigadores, percorrendo mais de 10 cidades até ser localizado e preso no estado do Pará.

Ditadura

Durante as investigações, o surgimento de Raimundo Lacerda Duque, apontado como traficante, levou a polícia a ligações mais perigosas. O assassinato da menina teria ocorrido no sítio do senador capixaba Eurico Rezende, em Sobradinho, e os culpados seriam o filho do senador, conhecido como Rezendinho, e Alfredo Buzaid Júnior, o Buzaidinho, filho do ministro da Justiça.

A presença de dois grandes nomes nas investigações pode ter sido um empecilho para a polícia por diversos motivos, sendo a ditadura militar o maior deles. A suposta relação do filho de um ministro no crime era uma afronta à própria imagem do regime militar como um símbolo de suposta ordem, progresso e moralidade.

Falhas?

Não foram colhidas provas materiais que poderiam ligar Álvaro, Duque e Buzaid ao crime e, em 1974, uma ordem desceu nas redações proibindo qualquer publicação sobre o caso: “De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação através dos meios de comunicação social escrito, falado, televisado, comentários, transcrição, referências e outras matérias sobre caso Ana Lídia”, dizia a nota assinada pela Polícia Federal.

A morte de Ana Lídia chegou a ir ao Tribunal do Júri, mas os suspeitos foram absolvidos por falta de provas em 1974, em decisão mantida pelas instâncias superiores em 1975. O crime prescreveu em 1993.

Ao longo dos anos, os outros nomes citados no caso também faleceram. Buzaidinho morreu em um acidente de carro em 1975, aos 19 anos, quando voltava de Ponta Grossa, no Paraná. À época, jornalistas e interessados chegaram a dizer que a morte fora forjada para tirar o jovem de circulação, mas houve comprovação em 1986, após uma exumação. 

Rezendinho tirou a própria vida em 1990, aos 40 anos, em seu apartamento em Vitória (ES). Duque morreu em 2005, no Hospital Regional de Ceilândia (HRC), após complicações causadas pelo alcoolismo.

Agora, a morte de Álvaro Henrique Braga, ocorrida no Rio de Janeiro e tornada pública nesta quarta-feira (16/9), soma-se ao falecimento de Duque. Com o falecimento dos dois únicos homens levados a julgamento pelo caso, o assassinato de Ana Lídia se consolida definitivamente como um dos capítulos mais emblemáticos e impunes da história do Distrito Federal.

*(Com informações do arquivo histórico do Correio Braziliense. Pesquisa de Francisco Lima Filho e Mauro Ribeiro, do Cedoc.)*

Fonte Correio Braziliense
Foto: Cláudio Alves/CB/D.A Press