Era um sábado de janeiro de 1985. Eu, um adolescente que desembarcava em Brasília, deixava para trás uma ilha de encantarias, cheia de becos e azulejos, encravada no meio-norte do país. Deixava amigos, muitos, e a seleção de vôlei, o esporte que praticava desde a infância. Deixava o mar à porta de casa. O mar sempre foi curativo e sempre exerceu uma força incomum em mim. Vim com a família. Primeiro endereço: SQS 105. Conhecia Brasília em férias, criança, mas agora era definitivo. Era sábado, fim de tarde. A primeira coisa que estranhei foi a falta de movimento. Contavam-se os carros. Gente pelas largas avenidas? Não havia. Só silêncio e uma chuva fina, que insistia em cair. Marcelo Abreu
No domingo seguinte, o Eixão não foi fechado para os carros, como é hoje. Não havia trânsito que justificasse a medida. Da janela do meu quarto, espiando o Eixão quase vazio, inventei o mar. Lembro, também, que, ainda no domingo, fui ao cinema, no gigante Atlântida. Sessão lotada para assistir a De volta para o futuro, o maior clássico da ficção científica daquele ano.
Dias depois, fiz vestibular para comunicação social (jornalismo). Fui aprovado. Ali, a possibilidade que ainda acalentava, a de voltar à ilha, caso não fosse aprovado aqui, sucumbira. Era essa a realidade. Seria aqui. E foi. Há 41 anos, uma outra história começou a ser escrita. E como tudo, Brasília agigantou-se diante daquela de 1985, quando a cidade era uma “cocota”, na flor da idade, aos 25 anos.Play Video
O DF contava com apenas 1,5 milhão de habitantes. Brasília, 136 mil. Oficialmente, eram oito as Regiões Administrativas. Quarenta e um anos depois, a população chegou a quase 3 milhões, perdendo apenas para São Paulo e Rio de Janeiro. As RAs somam 35. Tudo mudou. Junto às tantas transformações, vieram os muitos e graves problemas, que se sucedem de governo em governo, em todas as áreas: da saúde à educação, passando pela segurança. O que não difere muito dos grandes centros urbanos.
Andava-se pelas quadras sem insegurança e medo. Celulares, claro, não havia. Os encontros eram reais, olho no olho. Havia filas nos orelhões. Sim, era assim que, nas ruas, dava o retorno das matérias para a redação. A mão cheia de fichas telefônicas. O coração de um jovem repórter, para contar o que havia apurado e voltar para escrever. Assim, nasciam as matérias que, no dia seguinte, estampavam as páginas do jornal.
Era uma Brasília mais ingênua, à procura das suas próprias histórias, para cravar a sua própria identidade. Lembro-me de que, numa dessas, formado, ainda foca, fui ao assentamento da então Agrovila São Sebastião, hoje a cidade de São Sebastião, com seus mais de 81 mil habitantes, comércio pulsante, bancos, boas casas, prédios. A história era uma denúncia de que não havia ônibus para a população. Fui lá. Era mais do que aquilo. Não havia nada, nem asfalto. Voltei para a redação, depois de uma tarde ali, entre poeira e dramas humanos. Sabia que o material seria para uma nota curta. Mudou tudo ao contar à então editora o que havia visto e apurado. A nota curta virou a capa de domingo.
Brasília transformou-se, radical e aceleradamente. Mas ainda vejo nela alguma coisa da mocinha de 25 anos, que ouvia Estrela Cadente, da banda brasiliense Mel da Terra, no meu olhar do então adolescente que, em algum lugar, sobrevive na cidade que é fruto da teimosia e da coragem inarredáveis de JK.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press











