Seis décadas depois de abrir as portas em uma Brasília ainda em formação, o Beirute mostrou, mais uma vez, por que segue sendo um dos endereços mais emblemáticos da capital. Na noite de ontem, as unidades da Asa Sul e da Asa Norte foram tomadas por jovens, frequentadores antigos, famílias e curiosos para celebrar não apenas o aniversário de 60 anos do bar, mas a própria história afetiva da cidade.
A programação, que segue até sábado (18/4), começou com uma atmosfera de reencontro. Entre músicas, conversas animadas e mesas cheias, o que se via era mais do que movimento: era memória em circulação. Clientes que frequentam o espaço há décadas dividiam histórias com novos visitantes, criando uma espécie de ponte entre gerações que ajuda a explicar a longevidade do lugar.
Um dos pontos altos da abertura foi a exposição Beirute 60 anos — uma história de subversão, amor e tradição, que, em parceria com o Correio, reúne reportagens históricas e registros marcantes da trajetória do “Beira”. A mostra resgata momentos que ajudam a entender como o bar ultrapassou o papel de restaurante para se consolidar como espaço de convivência, debate e expressão cultural em Brasília.Play Video
O clima era de celebração, mas também de reconhecimento. Fundado em um período em que as opções de lazer eram escassas, o Beirute cresceu junto com a nova capital e se reinventou sem perder sua essência. O episódio em que garçons assumiram o controle do negócio, na década de 1970, ainda ecoa como símbolo de uma identidade construída com base no trabalho, na proximidade e no afeto.
Representante da segunda geração à frente do Beirute, Francisco Emílio Dantas Marinho falou com emoção sobre o peso e o orgulho de dar continuidade ao legado da família. “A gente cresceu aqui, acompanhando o movimento, e o Beirute está no nosso coração”, afirmou. Segundo ele, o espaço ultrapassa a história familiar e se conecta com a trajetória de inúmeras pessoas. “Brasília é viva — e o Beirute é um exemplo disso”, contou.
Também filho de um dos fundadores, Marcelo Marinho afirma que o Beirute se coloca como símbolo da cidade justamente por sua capacidade de reunir públicos distintos. “A gente atende todo mundo, e é esse amor que vai sendo construído ao longo do tempo”. Para Célio Marinho, o núcleo do sucesso está na relação construída com o público. Como mensagem às novas gerações, deixou um convite direto: “Que venham conhecer, viver isso aqui e, quem sabe, sentir a mesma felicidade que a gente está sentindo hoje”.
Memória afetiva
Presente na comemoração, o poeta Nicolas Behr definiu o Beirute como um espaço essencial para a vida simbólica da capital. “A cidade toda comemora porque o Beirute é um ponto onde Brasília respira e as pessoas se encontram”, afirmou. Frequentador desde a década de 1970, ele destacou a permanência do movimento e da relevância do local. “Aqui tem um valor simbólico, quase mítico. É como se humanizasse a cidade e a tornasse viva, espontânea”, completou.
Acompanhado da filha, o aposentado e cliente de décadas Tuca Pinheiro resumiu sua relação com o Beirute como parte inseparável da própria trajetória em Brasília. “Frequento aqui desde 1973, quando cheguei, vindo de São Paulo. Era praticamente minha segunda casa”, contou. Ele relembrou a presença constante de grupos de amigos. Mais do que as memórias individuais, destacou o papel coletivo do espaço: “Aqui sempre foi um ponto de cultura, debate e comemoração. Isso é o que precisa continuar para as próximas gerações”.
Frequentadores antigos do Beirute, o casal José e Jacinta Dias, acompanhado da amiga Inês Santos, prestigiou a comemoração com o olhar de quem viu o espaço atravessar décadas. “O Beirute é uma referência em Brasília, então qualquer festa para ele é merecida”, resumiu Jacinta, que frequenta o local desde os anos 1980, quando se mudou do Ceará para a capital. Entre lembranças acumuladas ao longo do tempo, ela destaca a constância dos encontros. “São muitas histórias, encontros com amigos, com a família… é um lugar de convivência”, afirmou. Para José, a experiência também passa pelo que nunca mudou: “O atendimento sempre foi muito bom, a cerveja gelada, isso atravessa décadas”.
Páginas da história
A gestora do Centro de Documentação e Memória (Cedoc) do Correio, Cilene Vieira, destacou o desafio de transformar décadas de cobertura jornalística em uma narrativa expositiva sobre o Beirute. Segundo ela, o acervo revela como o bar esteve presente em momentos decisivos da capital. “É uma história que se mistura com a de Brasília — um espaço de resistência nos anos 70 e 80, de celebração em Copas do Mundo, de encontros no período de redemocratização. Tudo isso está registrado nas páginas do jornal e agora também na exposição”, pontuou.
Ao refletir sobre o que torna o Beirute um símbolo da cidade, Cilene aponta para a diversidade como elemento central. “Brasília é uma cidade plural, com gente de todo o Brasil e do mundo, e isso se encontra aqui dentro. Você vê todas as tribos, todas as idades”, disse. Como mensagem para o futuro, ela sublinhou a importância da continuidade desse legado. “Existe uma tradição construída com muito cuidado, desde o atendimento até a qualidade da comida. É um ambiente que preserva essa gentileza e esse acolhimento. A expectativa é que as próximas gerações continuem vindo e mantendo viva essa história”, finalizou.
Foto: Minervino Júnior/CB














