Autoridades em contagem regressiva para deixar o governo e concorrer às eleições

Pelo menos 11 secretários do GDF vão disputar as eleições. Após a saída de Ibaneis Rocha em 28 de março, o cronograma prevê a posse de Celina Leão no Buriti no dia 29

A menos de duas semanas do prazo final da Justiça Eleitoral para desincompatibilização, o Palácio do Buriti entrou em contagem regressiva para a saída de, pelo menos, 11 secretários do primeiro escalão, que se preparam para entrar na corrida eleitoral. A tendência é que os atuais chefes das pastas sejam substituídos por técnicos ou secretários executivos que compõem a administração de cada secretaria.

A troca mais aguardada é a do comando do Governo do Distrito Federal (GDF). O governador Ibaneis Rocha (MDB) confirmou que sairá em 28 de março. O chefe do Executivo deve concorrer a uma cadeira no Senado Federal, enquanto a vice-governadora Celina Leão (PP) assume o governo e disputa ao cargo. Segundo a legislação eleitoral, se a autoridade for concorrer ao mesmo cargo que está ocupando, não é necessária a desincompatibilização.

A legislação estabelece que ocupantes de cargos públicos que pretendem disputar as eleições precisam deixar as funções até seis meses antes do primeiro turno. Como a votação será em 4 de outubro, o limite é 4 de abril.

No DF, o governo decidiu antecipar esse processo. A ideia é concentrar exonerações e nomeações até 31 de março, evitando decisões de última hora e reduzindo o risco de paralisação em áreas estratégicas. Após a saída de Ibaneis Rocha em 28 de março, o cronograma prevê a posse de Celina no dia 29 e a publicação das mudanças no Diário Oficial do DF nos dias seguintes.

Para o cientista político Ariel Calmon, sociólogo e mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB), esse movimento reorganiza o cenário, mas segue uma lógica conhecida. “A saída antecipada não chega a ser um diferencial decisivo, mas amplia o tempo de campanha de Ibaneis e, ao mesmo tempo, coloca Celina Leão na posição de incumbente, o que fortalece seu protagonismo na disputa”, analisa.

A avaliação é parcialmente compartilhada pelo especialista em direito eleitoral Erick Pereira, que vê o processo como previsível dentro do calendário político. “A máquina pública espera movimentos em ano eleitoral. Isso já é comum quando você tem esse calendário conhecido e os atores já estão se posicionando”, afirmou. Segundo ele, apesar do volume de mudanças, o cenário não aponta para desorganização. “Não significa que a gente vai ter um caos total. Tudo é absolutamente testado e medido dentro de um controle de riscos entre benefícios e prejuízos.”

Quem sai

Além de nomes fortes no governo, como Gustavo Rocha, José Humberto Pires e Hélvia Paranaguá, administradores regionais de cidades como Ceilândia e Recanto de Emas também entrarão na disputa, abrindo espaço para novas indicações em regiões politicamente relevantes.

Atual administrador de Ceilândia, Dilson Resende (MDB) entrará na disputa como candidato a deputado distrital. O administrador do Recanto Das Emas, Carlos Dalvan (MDB), também seguirá os mesmos passos e entrará para a disputa.

Para Ariel Calmon, o critério vai além da gestão. “Nesse momento, a articulação política tende a pesar mais do que critérios técnicos, porque as escolhas também fazem parte da estratégia eleitoral e da manutenção da base de apoio”, avaliou.

Na mesma linha, Erick Pereira reforça que as mudanças têm caráter estratégico. “Essa lista de possíveis candidatos do primeiro escalão nada mais é do que uma tentativa de manutenção de poder”, explicou. Para ele, o movimento revela uma engrenagem política mais ampla: “Você vê o primeiro escalão se afastando para garantir espaços e manter o governo sob controle de aliados leais.”

Secretários que irão concorrer

Cenário delicado

Celina Leão deve assumir o governo em um momento delicado, onde o Banco de Brasília (BRB) corre contra o tempo para se recuperar dos prejuízos deixados pela tentativa de compra do Banco Master. Apesar da aprovação da Lei nº 7845/2026, que traz soluções para a capitalização do banco, o GDF, enquanto acionista controlador do banco, tem lidado com ações na Justiça por conta das áreas públicas colocadas como garantia ao BRB no texto da lei.

A crise do BRB levou três deputados distritais a desembarcarem da base aliada de Ibaneis Rocha na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Apesar do enfraquecimento da base governista, 14 parlamentares permanecem ao lado do governo, o suficiente para aprovar pautas importantes e derrubar projetos que não interessam ao GDF.

Como ex-deputada distrital e ex-presidente da Casa, Celina tem bom trânsito entre os parlamentares, boa relação com o presidente da Câmara, Wellington Luiz (MDB), e com o Partido Liberal (PL), que conta com quatro integrantes na CLDF.

Caberá a ela conduzir a troca de equipe no primeiro escalão e manter o funcionamento da administração. Em paralelo, ela deverá ditar as próprias prioridades políticas e construir uma narrativa de protagonismo antes da campanha oficial.

Segundo Erick Pereira, esse tipo de transição tende a preservar a continuidade administrativa, mesmo com a troca de nomes. “Eu não vejo muita preocupação com relação à continuidade dos serviços essenciais. Essas áreas técnicas acabam garantindo o funcionamento da máquina, mesmo com mudanças no comando”, avaliou.

Celina precisará coordenar a publicação das exonerações e nomeações no Diário Oficial, garantindo que a transição ocorra sem prejudicar o funcionamento das pastas. Para isso, fontes internas destacam que o planejamento começou semanas antes e envolve reuniões com assessores, partidos aliados e lideranças regionais.

Reorganização

O que acontece agora no Palácio do Buriti vai além da troca de nomes. As decisões tomadas neste período indicam o caminho que o grupo político de Ibaneis Rocha pretende seguir na eleição. Nomeações, alianças e espaços ocupados dentro do governo funcionam como sinais claros da estratégia para a campanha.

“Essas mudanças funcionam como um termômetro da estratégia eleitoral. No caso do DF, o que se observa é um cenário de coesão, com sinais de unidade na construção da coalizão para 2026”, ressalta Ariel Calmon.

Erick Pereira aprofunda essa leitura ao apontar que a movimentação já faz parte da disputa eleitoral em curso. “Essa transição não é meramente protocolar. Ela faz parte da campanha e de uma estratégia de antecipação acelerada”, afirmou.

Nos próximos dias, com a publicação das exonerações e a definição dos substitutos, esse cenário deve ficar mais claro, tanto dentro do governo quanto para o eleitor, que começa a acompanhar os movimentos da disputa. O que se vê, de forma geral, é que cada decisão política no Palácio do Buriti, nos próximos dias, vai refletir não apenas na administração pública, mas também no tabuleiro eleitoral que definirá os próximos meses no Distrito Federal.

Essa movimentação do primeiro escalão do GDF ocorre em meio a um calendário eleitoral bem definido, que influencia a estratégia política. A janela partidária, aberta de 5 de março a 3 de abril, permite que pré-candidatos mudem suas legendas, enquanto a campanha só começa oficialmente em 16 de agosto. Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro e segundo para 25 de outubro, cada exoneração, nomeação e indicação dentro do governo ganha peso, pois sinaliza aos partidos, aliados e eleitores como o grupo no poder pretende se posicionar na disputa.

Ineditismo

Pela primeira vez em uma eleição no Distrito Federal, quatro ex-governadores concorrerão a cargos nas urnas. Além de Ibaneis Rocha, que deve concorrer ao Senado, outros três ex-governadores estarão na disputa. Agnelo Queiroz (PT), Rodrigo Rollemberg (PSB) e Cristovam Buarque (PSB) vão concorrer a uma cadeira na Câmara Federal.

Corre nos bastidores a probabilidade de Ibaneis Rocha mudar de ideia e concorrer a uma vaga de deputado federal, uma vez que a disputa ao Senado será concorrida e contará com uma chapa pura do PL, com Bia Kicis e Michelle Bolsonaro. Além disso, Érika Kokay também será um nome de peso a concorrer ao Senado.

Integrantes do GDF que vão concorrer às eleições:

Agaciel Maia (PL)

Secretário de Relações Institucionais: será candidato a deputado federal.

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Ana Paula Marra (Podemos) 

Secretária de Desenvolvimento Social: antes de assumir a pasta, foi braço direito da primeira-dama, Mayara Noronha, quando essa era a secretária. Vai concorrer a uma vaga de deputada distrital.

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André Kubitschek (PSD)

Secretário de Juventude: foi candidato a deputado federal nas últimas eleições e vai concorrer novamente a uma vaga na Câmara dos Deputados.

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Cláudio Abrantes (PSD)

Secretário de Cultura e Economia Criativa: foi deputado distrital e vai tentar retornar à Câmara Legislativa.

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Cristiano Araújo (MDB)

Secretário de Turismo: ex-deputado distrital, vai concorrer novamente a uma vaga na Câmara Legislativa.

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Gustavo Rocha (Republicanos)

Secretário da Casa Civil: vai concorrer ao cargo de vice-governador na chapa de Celina Leão. Braço direito de Ibaneis, ele deixará em seu lugar alguém que ajude a tocar o trabalho em sintonia com o atual governador e Celina.

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Hélvia Paranaguá (MDB)

Secretária de Educação: vai concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados, com o apoio de Ibaneis.

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José Humberto Pires (MDB)

Secretário de Governo: coordena as obras, marca registrada do governo Ibaneis. Vai concorrer a deputado federal.

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Marcela Passamani (MDB)

Secretária de Justiça e Cidadania: vai concorrer a uma vaga de deputada distrital.

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Rodrigo Delmasso (Republicanos)

Secretário da Família: ex-deputado distrital, vai concorrer novamente ao cargo.

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Sandro Avelar (PSDB)

Secretário de Segurança Pública: aproveitando os bons números da segurança no DF, o secretário vai concorrer a uma vaga de deputado federal.

Foto: Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília