Grupos de guardiões do Cerrado protagonizam a conservação da natureza

Conhecimentos ancestrais e pertencimento fazem de povos indígenas e comunidades tradicionais os principais protetores do bioma mais desmatado do Brasil. Conheça alguns desses grupos e suas histórias

“Nós somos a própria natureza, vivemos em confluência com ela. Nosso modo de vida é circular. Todas as vidas se conectam uma com a outra”. A reflexão é da quilombola Alciléia Torres, nascida na comunidade kalunga Vão de Almas, território tradicional na Chapada dos Veadeiros.

No coração do Brasil, Alciléia cresceu aprendendo a cultivar na natureza o necessário para viver sem deixar de manter o Cerrado em pé. Ela compreende a relação da sua comunidade e de si mesma com a floresta como parte de um todo. “Quando você chega à casa de uma pessoa Kalunga, já vê as práticas de plantio ali. Temos todo o conhecimento ancestral que é praticado até hoje, que é o que nos mantém firmes e fortes, assim como o Cerrado, que é resistente”, afirma. 

Os kalunga praticam a técnica da “roça de toco”, sistema agrícola ancestral de subsistência em que um espaço controlado é derrubado, preservando o toco e raízes das árvores, e usado para plantio de diversas culturas, sem agrotóxicos, durante cinco anos. Depois desse período, a área é deixada para se recompor naturalmente. “Se você olhar aquele espaço, você nem imagina que foi tocado, pois tudo cresce de novo”, conta Alciléia. 

Para ela, é muito claro que não há separação entre a natureza e as pessoas que a habitam. “Nós, povos da terra, kalungas, cerrativistas, vivemos em harmonia com o planeta e com as vidas dos outros animais”.

Segundo levantamento realizado pelo MapBiomas em 2025, 80% do território Kalunga está preservado de floresta cerratense, em contraste com o estado de Goiás, que tem apenas 30% de mata nativa conservada.

Sistema agroflorestal

A raizeira e agricultora Josefa Ataídes, 69, sente e lamenta a diminuição da floresta nativa do Cerrado. “Eu sou apaixonada pelo Cerrado desde pequena. Ele é um pedaço de mim. Eu dependo dele e o quero cada vez mais lindo e abundante”, diz Josefa. Moradora de uma chácara na zona rural de São Sebastião, ela cultiva plantas medicinais nativas e seu próprio alimento no que pode ser chamado de “sistema agroflorestal”, mas que, para Josefa, é apenas a maneira que sua comunidade sempre plantou. 

Josefa nasceu em uma área isolada no Tocantins e veio para o Distrito Federal há 37 anos. Na infância, aprendeu com mulheres da região a reconhecer as propriedades curativas das plantas, em caminhadas mata adentro. “Elas não sabiam dizer quais moléculas cientificamente funcionavam, mas sabiam dizer o que fazia bem ou não”, relembra. 

O caminho para a casa dela tem poucos rastros de verde. Isso muda, no entanto, quando os que a visitam encontram dois hectares preenchidos de mata reflorestada por ela. Quando chegou ao terreno, em 2020, estava tudo desmatado e abandonado. Isso mudou rapidamente, com o plantio de mais de 300 plantas do Cerrado. 

Josefa, assim como Alciléia, compartilha da ideia de amor e pertencimento com o bioma. “Todos precisamos usufruir do Cerrado. Ele precisa ser olhado, sentido, amado, e, assim, conservado. Temos que estar em relação com a nossa natureza”. Para ela, esse entendimento atravessa gerações. 

Santuário dos Pajés

Irémirí Luvan Tukano,34, e a mãe dele, Assunta Dessana, 61, mudaram do Norte para o Centro-Oeste há mais de 10 anos. Atualmente, vivem na terra indígena Santuário dos Pajés, localizada no bairro. A história da demarcação do espaço começa com o Pajé Santxiê Tapuya, que lutou por décadas pela delimitação da área, ocupada por famílias Fulni-ô, Guajajara e Wapixana antes da implantação do bairro.

A fronteira entre os prédios e o território é evidente. De um lado, 30 hectares de floresta. De outro, edificações. “Nós somos os maiores defensores da floresta. E nós cuidamos de todo mundo. Todos respiram o mesmo oxigênio, por isso, precisamos repensar e sermos cuidadosos com a natureza”, exalta Irémirí. “Graças aos indígenas, esse lugar onde estamos está preservado”, conclui. 

Assunta aprendeu a cuidar da roça e do lar com seus pais, e aponta para o sentimento de solidão na luta pela preservação ambiental. “Os não indígenas não estão nem aí. Eles vão desmatando, mesmo sabendo das condições”, comenta, ao refletir sobre a quantidade de dados que evidenciam a urgência ambiental e climática vivida no planeta.

Indigenizar pensamentos

O Ministério do Meio Ambiente reconhece esses grupos como protagonistas na conservação da natureza. Algumas das comunidades tradicionais do Cerrado são os quilombolas, raizeiras, geraizeiros, quebradeiras de coco babaçu e apanhadores de sempre-vivas, além dos povos indígenas que estão presentes em todo o território brasilieiro.

Para a antropóloga indígena e pesquisadora da UnB Braulina Baniwa, os povos indígenas se entendem enquanto sujeitos a partir da natureza. Ela fala em “indigenizar pensamentos” para a construção de um futuro sustentável, com outros paradigmas de desenvolvimento e cuidado com a terra. Ela explica que “a herança que o Brasil recebeu foi do colonizador, e não dos povos indígenas”.

Braulina cita diferenças na forma como os povos originários e os habitantes das cidades veem a natureza. “A pessoa da cidade olha muito para a estética. Vê a arara e a onça e acha lindo, como se elas também não fizessem parte da mesma coisa”, diz. 

Grandes mestres

A antropóloga, professora da Universidade de Brasília (UnB) e diretora do projeto Museu do Cerrado, Rosângela Corrêa, aponta os povos indígenas e comunidades tradicionais como guardiões do Cerrado. “Não há solução climática viável, eficaz, justa e duradoura sem considerar os modelos de conservação que eles praticam há gerações”, ressalta. 

Rosângela explica que a visão de mundo de quem vive na cidade, sem contato ou conexão com esses povos, é de enxergar a natureza a partir dos recursos que ela tem para oferecer, e não a partir de si. “Os ‘urbanoides’ (termo usado pela professora para se referir àqueles que não pertencem às comunidades e povos) veem os recursos naturais à disposição para seus desejos. Para as comunidades tradicionais, sua identidade está intimamente ligada à natureza. É pertencimento”, destaca Rosângela.

A professora sugere que a sociedade deve aprender com as maneiras de produção e extrativismo desses grupos. “Os nossos grandes mestres são os povos indígenas e as comunidades tradicionais”, enfatiza. Rosângela Corrêa propõe que essa relação pode ser construída a partir da educação ambiental e da “cerradania” — uma cidadania do Cerrado. 

A ideia de que esses povos são guardiões é reforçada por Ingrid Silveira, secretária-executiva da Rede Cerrado, organização que atua na defesa do bioma. “Não é apenas uma expressão simbólica. Esses territórios coletivos sustentam a preservação e impedem o desmatamento”, salienta.

*Estagiária sob a supervisão de Malcia Afonso

Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press