Candidatos não eleitos comentam expectativa e resultados das urnas

Candidatos a deputado distrital que tiveram um desempenho fraco nas urnas destacam a importância da participação e experiência adquirida durante o pleito, apesar dos perrengues por que passaram e da falta de recursos durante a disputa

O período eleitoral também marca a oportunidade de pessoas comuns, sem carreira política, buscarem espaço entre os representantes do povo. Apesar da força de vontade, muitos amargam poucos votos. Entretanto, mesmo com o baixo quórum, o desânimo não entra em jogo para quem quer participar da política local. O Correio conversou com candidatos a deputados distritais que tiveram poucos votos para saber as impressões de suas primeiras campanhas.

Para Klebes Rezende, candidato pelo Podemos, o motivo para ingressar na corrida eleitoral foi por “estar cansado da velha política”. O advogado comentou que seus 10 anos de experiência na área criminalística o fez perceber o gargalo na segurança pública. “Isso está diretamente ligado ao sistema prisional. Está ligado à reestruturação, e depende da ressocialização, se não houver uma ressocialização, o preso vai ser condenado a repetir o passado”, afirmou.

Alcançando 508 votos, o candidato disse que o resultado não o desanimou. “Com certeza vou me candidatar de novo. Essa foi só a minha primeira campanha”, ressaltou. Ele adiantou que o plano, agora, é trabalhar no fortalecimento do seu nome, inclusive para conseguir arcar com os custos da campanha. “Foi a primeira vez. Eu não tinha ideia de como era a política, de como funcionavam os bastidores da política dentro do partido, como era a questão do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário. Vi que é uma realidade muito triste, por exemplo, não tive condições de contratar cabos eleitorais”, enfatizou Klebes Rezende. 

“Valeu a pena”

Apesar das dificuldades impostas pelo limite orçamentário, Rezende destacou que a experiência “valeu a pena”. O que mais ficou marcado durante a campanha foi perceber as dificuldades das pessoas que encontrou na rua. “Eu andei bastante no Distrito Federal. Conheci lugares que não conhecia e passei a ver uma realidade diferente, que a gente vê só pela televisão. Vi que tem muita coisa para melhorar, há muitas muitas pessoas esquecidas pela cidade”, pontuou. 

Concorrendo ao cargo de deputada distrital pelo Democrata, a médica Dra. Mônica somou 46 votos ao fim da apuração. A votação reflete os percalços enfrentados por candidaturas de menor porte, marcadas pela ausência de verba pública e por agendas divididas com o trabalho profissional.

Sem acesso ao Fundo Eleitoral e ao horário gratuito de rádio e televisão, a médica relatou que a campanha foi custeada quase sem recursos, apoiada em materiais impressos. A rotina de plantões e compromissos na medicina limitaram a presença da candidata nas ruas.

Além da falta de recursos, Mônica enfrentou contratempos no ambiente virtual, como a invasão da sua conta no Instagram, o que inviabilizou o impulsionamento de conteúdos pagos. Ao avaliar o resultado das urnas, a médica mencionou a frustração com supostos compromissos de eleitores que não se confirmaram no pleito.

“Fiquei chateada”

“Quando vi o resultado das urnas, notei que muitas pessoas mentem, dizem que vão votar em você e não votam. Muitos mentem, iludem a gente, prometem e realmente não cumprem sua palavra. Confesso que fiquei chateada”, ressaltou a médica.

Apesar da baixa votação e das dificuldades relatadas durante o período de campanha, a candidata afirmou que a experiência serviu de aprendizado para a vida pública. Mônica destacou que pretende analisar as falhas do processo para planejar uma nova candidatura no futuro, com o objetivo de apresentar propostas para a gestão da saúde pública no DF.

“Foi muito emocionante ver meu nome e minha foto nas urnas concorrendo para representar Brasília. Valeu a pena a experiência! Pretendo estudar estratégias para, na próxima eleição, não errar mais e fazer uma campanha da forma que eu me eleja”, afirma Dra. Mônica.

A campanha política faz com que os candidatos saiam da zona de conforto, comentou Mc Jenny, que depois de 20 anos como funkeira, resolveu se aventurar na política pelo partido Republicanos. Moradora de Samambaia, afirmou que a campanha foi uma “experiência é válida”.  “Quando fazemos coisas assim, evoluímos como pessoa. Com certeza valeu a pena”, disse ela, que teve 539 votos. 

Jenny comenta que teve que fazer muitos sacrifícios. “Quando comecei, meu filho tinha 1 mês, e o outro tinha 7 anos. Fomos debaixo de chuva e sol para falar com a população. É difícil, mas vi que nasci para a política. Mesmo com a experiência desafiadora, ela garantiu à reportagem que estará nas urnas em 2030, como uma candidata mais madura e com mais projetos voltados à população.

Lançar-se em uma candidatura é uma oportunidade de aprendizado, avaliou Abel Santos, que conquistou 552 votos pelo PSol. “Acho que dentro dessa caminhada, tenho de buscar sempre estar evoluindo no campo pessoal, no campo intelectual e emocional. A melhor prova dessa evolução foi justamente a candidatura”, ressaltou.

O projeto de ser candidato vem desde 2024. “Depois de análises que fiz, entendi que a maior dificuldade que a classe trabalhadora tem para conquistar e manter direitos é a falta de organização e representação”, contou.

“Campanha pequena”

O número de eleitores conquistados não o desanima, pelo contrário, representam uma força que pode ser ampliada. “Eu fiz uma campanha pequena, concentrei no Recanto das Emas e no Riacho Fundo 2 e nas redes. Os votos que consegui me estimulam a continuar”, disse Santos. Ao Correio, o candidato contou que, mesmo sem muitos recursos, focou em conhecer os eleitores de porta em porta. 

Para Eduardo Galvão, especialista em relações governamentais e professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, a população engajar-se politicamente, inclusive com candidaturas, é “uma parte fundamental para a democracia”.  O especialista ressaltou que uma candidatura representa disposição de defender ideias, dar voz a grupos sociais e contribuir para os rumos da sociedade. “Mesmo quando não resulta em uma eleição, pode ampliar debates, dar visibilidade a causas e abrir caminhos para novas lideranças”, explicou.

Ser candidato, segundo o especialista, não é a única forma de participar da política. “Há a opção de participar de consultas públicas, conselhos, associações e fóruns de discussão. Afinal, a política está presente nas decisões que afetam nossa vida todos os dias”, reforçou Eduardo Galvão. O professor acrescentou que quanto mais pessoas participam das decisões, maiores são as chances de políticas públicas representarem os interesses da sociedade.

Fonte Correio Braziliense
Foto: pacifico/CB