Nesta semana, Planaltina fez 167 anos. A filha primogênita do DF é meu lar há quase três décadas. E, por isso, é também o lugar onde mais acumulei memórias de infância e de adolescência. Com personalidade de cidade pequena, a RA reúne todos os estereótipos de interior. Ali, você pode facilmente se deparar com pessoas sobre cavalos dividindo a pista de caminhada com os pedestres na Avenida Independência. E está tudo bem (eu acho).
Demorei anos para reconhecer a riqueza histórica e cultural de Planaltina. Vislumbrava mudar-me para mais perto do Plano Piloto assim que houvesse alguma oportunidade. O motivo estava na distância dos estudos e do trabalho, que, aliada à falta de transporte público de qualidade, me desanimava diariamente. E ainda desanima. Perceba que o problema não está em Planaltina.
Mas, de fato, mantive por anos distância de tudo que a classifica como cidade de interior. As celebrações religiosas, por exemplo, só fui conhecer depois que entrei no Correio e durante as coberturas desses eventos. Apesar de não ter religião e abominar quem a utiliza para promover discursos de ódio — mas esse papo fica para depois —, pude ter contato com a beleza da fé genuína, da Festa do Divino à Doutrina do Amanhecer.
Eu, sempre tão cética com tudo isso, me emocionei com a encenação da Paixão de Cristo deste último ano, que, aliás, cobri pela terceira vez pelo jornal. No Vale do Amanhecer, enchi os olhos com o legado de amor e humildade deixado por Tia Neiva. A igrejinha e a praça São Sebastião te transportam para outros tempos e encantam até quem não é chegado em história. É lindo, reconheço. Mas Planaltina não se resume a isso.
Morar em uma “cidade pequena” proporciona um cotidiano que funciona em ritmo diferente. É possível, quase sempre, resolver coisas do dia a dia a pé. Não existe congestionamento no trânsito — o estresse, pondero, está em uma certa desorganização desse espaço. Mas isso também fica para depois. Vários pontos da região são arborizados e te permitem descansar em alguma sombra durante caminhadas mais longas. Sim, amigos, diferentemente de tantas outras RAs, existem árvores ali. Existe calma.
O que mais gosto, porém, é a criação de laços desenvolvida, devagar e sempre, naquele lugar. Na vizinhança, na padaria, na feira, nas filas. Há um senso de comunidade. Tempos atrás, por exemplo, levei algumas roupas para dona Graça, antiga costureira da cidade, consertar. Enquanto ajustava as peças, ela me contou longamente sobre uma amizade construída ali, naquele espaço.
O laço foi atado aos poucos, costurado pela confiança que a cliente depositava em Graça. Durou anos. Quando faleceu, despediu-se desse mundo vestida com a roupa feita pela amiga. “E hoje sou eu quem costuro os ternos do neto dela, acredita? Ele só confia em mim”, contou, emocionada. Quando nos despedimos, pediu que eu mandasse abraços à minha mãe. “Gosto muito dela”, comentou. Em Planaltina, também existe ternura.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Kayo Magalhães/CB/D.A Press











