Em ano de El Niño, gestão da água se torna ainda mais necessária

Mesmo sem riscos hídricos para o DF, especialistas defendem planejamento e consumo consciente dos brasilienses. Caesb garante que não há risco de desabastecimento e que os principais reservatórios que abastecem a população operam em alto nível

Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) destaca que o fenômeno El Niño deve elevar as temperaturas no país e pode atrasar o início do período chuvoso entre a primavera e o verão. Especialistas defendem o consumo consciente de águas e alertam para uma estiagem mais rigorosa.

Apesar disso, a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) garante que não há risco de desabastecimento no DF. Segundo a empresa, os principais reservatórios que abastecem a população operam em alto nível: o Descoberto está com 98,8% de armazenamento, enquanto o Santa Maria registra 99,5%. “Não há qualquer risco de adoção de medidas restritivas”, enfatizou a companhia.

A Caesb destacou que mantém monitoramento permanente dos mananciais e dos sistemas de produção e distribuição de água, além de realizar ações preventivas de manutenção, interligação entre sistemas, controle operacional e redução de perdas. Segundo a empresa, essas medidas garantem maior segurança hídrica mesmo durante o período de estiagem. Ainda assim, a companhia reforça que o consumo consciente continua sendo fundamental, especialmente nos meses mais secos. 

Professor do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB), Reuber Albuquerque Brandão explica que o fenômeno do El Niño favorece a formação de uma massa de ar quente sobre o Cerrado, dificultando a chegada da umidade. “A expectativa é de um aumento das temperaturas máximas, especialmente entre agosto e setembro, combinado com a diminuição das chuvas e, muitas vezes, com o atraso do início do período chuvoso”, detalhou.

Na avaliação de Brandão, a previsão de um El Niño intenso reforça que o DF não se preparou adequadamente para enfrentar mudanças climáticas mais frequentes. “Não vimos um processo forte de criação de novos reservatórios, de recuperação de nascentes, de recomposição das matas ciliares ou de aumento da capacidade de infiltração de água no solo. O que existe são iniciativas isoladas da população, como cisternas e sistemas de captação de água da chuva, mas falta um planejamento de longo prazo”, afirmou.

Para Reuber Brandão, caso a estiagem se intensifique e as chuvas atrasem, o abastecimento poderá sofrer pressão nos próximos meses. “Não é possível afirmar que haverá racionamento, mas existe, sim, a possibilidade de uma crise importante se não houver planejamento e uso responsável dos recursos hídricos”, alertou.

Na avaliação de Samya Gomes Veloso, mestre em Engenharia Civil e professora da Estácio Brasília, além da redução das chuvas, outros fatores contribuem para pressionar o abastecimento durante o período de seca. “O problema não é apenas meteorológico. É uma combinação entre clima, consumo, infraestrutura, uso do solo, fiscalização e comportamento da população”, resumiu.

Sustentabilidade

Mesmo com os reservatórios cheios, há quem priorize a economia de água. No condomínio Via Enseada, em Águas Claras, por exemplo, o condomínio aproveita tanto a água da chuva quanto a chamada “coluna cinza”, proveniente das máquinas e tanques de lavar roupa, que passam por tratamento antes de ser reutilizada. “Quando as pessoas lavam as roupas, essa água iria para a rede de esgoto. Nós capturamos esse volume, tratamos em uma estação própria e conseguimos reutilizar até 15 mil litros por dia. Quando os reservatórios de água da chuva baixam, esse sistema entra automaticamente em funcionamento”, explicou o gestor Carlos Cesar Moura, 72.

De acordo com Moura, o condomínio tem capacidade para armazenar 90 mil litros de água da chuva, captados diretamente da cobertura dos edifícios, volume que é complementado pela água de reúso ao longo do ano. “Conseguimos ter água o ano inteiro para lavar o condomínio, irrigar os jardins e manter os espelhos d’água sem utilizar água potável. Além de reduzir custos, é um ganho enorme para o meio ambiente”, destacou.

Gestão

Se nos condomínios a economia de água tem sido estimulada por meio de sistemas de reúso e incentivos aos moradores, no setor privado a estratégia passa por investimentos em infraestrutura e gestão do consumo. A Garra Food Solutions, empresa especializada na venda de produtos para o setor alimentício e detentora do Selo Verde do Instituto Chico Mendes, implantou um programa permanente de gestão do consumo de água que reduziu entre 75% e 80% o uso de água potável. 

Segundo Reginaldo Gomes, 57, sócio da empresa, a principal medida foi a construção de um reservatório subterrâneo com capacidade para armazenar 350 mil litros de água da chuva captada dos telhados da empresa para uso na lavagem dos caminhões de entrega, por exemplo, além da implantação de um sistema de monitoramento diário do consumo. “Esse controle permite identificar imediatamente qualquer desperdício ou vazamento. Com essas medidas, estimamos que já deixamos de retirar da natureza aproximadamente 20 milhões de litros de água ao longo desses anos”, afirmou. “Sustentabilidade não é um projeto que começa quando o problema aparece. Ela é construída por decisões tomadas muitos anos antes. Preservar a água é preservar a vida”, completou.

Dicas de economia de água

  • Use água para o que for necessário;
  • Verifique se existem vazamentos de água nos encanamentos;
  • Ao fechar a torneira, certifique-se de que não ficou pingando;
  • Use redutores de vazão na torneira para aumentar a sensação de um fluxo de água;
  • Desligue o chuveiro ao se ensaboar e diminua o tempo embaixo da ducha;
  • Deixe a torneira fechada enquanto ensaboa a louça e use a água na hora de enxaguar;
  • Use vassouras e não mangueiras para limpeza;
  • Use um regador para regar as plantas;
  • Use uma vasilha com água para lavar frutas, legumes ou verduras;
  • Não deixe transbordar a água da caixa d’água e a mantenha sempre tampada;
  • Reutilize água sempre que possível.

Fonte: Caesb

Artigo: Segurança hídrica exige planejamento

Jackson De Toni, professor de políticas públicas do Ibmec Brasília

A chegada de um novo episódio do fenômeno El Niño coloca a segurança hídrica do DF no centro dos debates sobre a gestão de riscos climáticos. O aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico altera a circulação atmosférica global, impondo ao Brasil Central um cenário de chuvas reduzidas e temperaturas extremas. Essa anomalia climática prolonga os períodos de estiagem, acelera a evaporação nos reservatórios e prejudica a recarga natural dos aquíferos locais, desenhando um quadro de alerta.

Historicamente, a vulnerabilidade hídrica da capital não se resume à escassez pluviométrica transitória, mas a uma crise impulsionada por fatores estruturais. O crescimento populacional, atrelado à expansão da impermeabilização urbana, elevou a demanda pelo recurso. Somam-se a isso o desmatamento do Cerrado, a ocupação irregular do solo e as captações clandestinas, que sufocam a função ecológica da região conhecida como o “berço das águas”. Sem uma mudança de paradigma, projeções científicas alertam para o risco de o clima local transicionar gradativamente para um perfil semiárido, com o risco extremo de o Reservatório do Descoberto secar completamente até o ano de 2040.

Apesar da gravidade das previsões climáticas, o contexto atual difere da crise vivenciada entre 2016 e 2017. O poder público desenvolveu maior resiliência por meio de investimentos em infraestrutura “cinza”, injetando cerca de 2,8 bilhões de reais na modernização e expansão da malha hídrica, com a entrada em operação de novos polos de captação, como o Sistema Produtor Corumbá IV e as captações no Lago Paranoá, reduzindo a dependência da bacia do Descoberto.A governança regulatória amadureceu, consolidando marcos operacionais rígidos, monitoramento estratégico constante e planos de contingência bem definidos.

Contudo, a segurança hídrica sustentável exige que a ação estatal vá além das grandes obras e passe a focar na chamada “infraestrutura verde” e na gestão da demanda. É imperativo transformar dados climáticos em políticas públicas voltadas ao combate ao desmatamento e à recuperação de nascentes e áreas degradadas. Ao mesmo tempo, a consolidação de hábitos de economia de água, estimulada por programas de educação ambiental, pode reduzir a pressão sobre os mananciais. O enfrentamento das intempéries climáticas é, em última análise, um esforço sistêmico e coletivo que exige a visão antecipada do Estado e o consumo consciente de toda a sociedade.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Arquivo pessoal