O limbo dos Zillennials

Estamos no limbo entre sermos jovens demais para nos equipararmos totalmente aos Millennials e velhos demais para compartilharmos dos mesmos interesses da Geração Z

Dia desses, deparei-me com uma reportagem acerca dos Zillennials. Apesar de já ter ouvido o termo, nunca havia lido muito sobre o assunto. Segundo o texto, os Zillennials compreendem uma “microgeração” nascida entre 1993 e 1998, localizada entre os Millennials (Geração Y) e a Geração Z. Estamos (sim, me incluo e, por isso, meu interesse) no limbo entre sermos jovens demais para nos equipararmos totalmente com os 33+ e velhos demais para compartilharmos dos mesmos interesses dos 27-. 

Claro que a idade é algo relativo quando se trata de gerações. Afinal, pessoas que crescem em contextos sociais diferentes, ainda que tenham nascido no mesmo ano, terão experiências e referências distintas. No meu caso, porém, sinto-me contemplada pelo conceito da “microgeração”. Somos aqueles que vivenciaram o fim do universo analógico e o boom da internet. Ouvimos músicas em fitas e CDs, baixamos hits — que vinham acompanhados de milhares de vírus — pelo LimeWire, passamos pelo MP3 e hoje usufruímos da praticidade do streaming. 

Nas redes, escrevíamos depoimentos no Orkut, explorávamos o Facebook quando tudo ainda era mato, e temos memórias vívidas de quando o Instagram era um espaço mais modesto (e legal). Havia um objetivo genuíno de criar laços e sentir-se parte de algo, seja uma comunidade online, seja uma subcultura, como os emos, new ravers e otakus. 

Hoje, porém, a dinâmica mudou. Com a enxurrada de informações e estímulos, poucos minutos nesse último espaço são suficientes para se sentir esgotado. Tudo parece uma corrida desesperada por engajamento, na qual os humores são ditados pela quantidade de reações ao seu story. Aos que se arriscam a desbravar perfis de influenciadores de caráter duvidoso e a ler comentários de notícias polêmicas, deixo aqui o meu pesar.

Longe de mim parecer uma jovem adulta carrancuda. Meu sentimento, na verdade, é de saudade. Tudo o que era motivo de desejo — comprar uma roupa legal, esperar uma ligação, alugar um filme às sextas ou ver as fotos reveladas de um aniversário — exigia espera. Era um exercício de paciência. E, por isso, quando acontecia, era tão especial. A Geração Y entende bem disso. 

Por outro lado, os Zillennials tendem, em comparação aos mais velhos, a ter uma relação menos idealista a respeito de trabalho e estudos. Temos consciência de que nem sempre basta estudar, fazer uma faculdade e seguir paixões para ter uma carreira brilhante, tampouco caímos no discurso de que é preciso “vestir a camisa da firma por amor”. Queremos estabilidade financeira (quem não quer?), mas também saúde e paz. 

A falta de garantia do sucesso com um diploma não significa, porém, que os estudos não sejam importantes. Em tempos de redes sociais, a promessa de enriquecimento rápido promovida pelo acesso instantâneo a informações é uma distorção da realidade. Só funciona para quem já tem dinheiro. Olhando para o imediatismo da Gen Z, percebo que, talvez, o limbo dos Zillennials simbolize, na verdade, estar em equilíbrio entre dois extremos. Assim seja.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Caio Gomez