Quem estava na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 18 de fevereiro de 2006, jamais esqueceu o que viu ali. Há exatos 20 anos, os Rolling Stones fizeram um mega show gratuito para cerca de 1,5 milhão de pessoas do Brasil e de vários países da América do Sul.
Multidões de vários sotaques ocupavam a orla, barcas e varandas lotadas observavam a movimentação, helicópteros cortavam o céu. Às 21h45, Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood subiram ao palco principal em um momento que marcaria a história do rock no Brasil.
Mas muito antes daquele momento, desde as primeiras horas da manhã, a orla carioca já se transformava em um caldeirão. Fãs chegavam antes do amanhecer para garantir posição, expostos a um calorão de quase 40ºC. Equipes de produção distribuíram líquidos para hidratação e o público era molhado com jatos de água para amenizar o sufoco de quem aguardava horas sob o sol intenso até o início do show.
O comerciante Ronaldo Stone, 63, fã declarado, chegou cedo para ver seu quarto show da banda, até então. Às 7h30 da manhã, ele já estava na praia, posicionado na grade do palco menor —uma estrutura que seria montada no meio da plateia para aproximar a banda do público.
Ele passou o dia inteiro ali, sob o calor extremo. “Fiquei bem pertinho deles, principalmente do baterista, Charlie Watts. Foi emocionante, um show de graça em que pude sentir toda a energia da melhor banda de rock do mundo.”
A montadora e preparadora de obras de arte Juliana Peixoto, 43, vivenciou o drama do calor de perto, mas tem viva em sua memória o momento que classifica como épico: ver de perto sua banda do coração.
Desempregada na época, ela tomou uma decisão com pensamento estratégico: chegaria cinco dias antes do evento para acompanhar a montagem do palco e garantir um lugar na grade. Ficou hospedada na casa de uma tia.
“Era calor absurdo. Atravessávamos a cidade todos os dias para acompanhar a montagem do palco. No dia, era tudo ou nada para chegar na grade.”
Juliana conta que chegou cedo, mas decidiu dar uma volta para se hidratar e voltou no meio da tarde. Já estava lotado. Mas ela observou famílias e pessoas grudadas na grande que foram saindo ao longo do dia conforme um ou outro passavam mal. Uma briga a aproximou ainda mais de seu objetivo. A estratégia funcionou. Ela conseguiu ficar bem perto do palco principal.
Ao longo do dia, os fãs foram presenteados com uma aparição de Richards da janela do Copacabana Palace, onde a banda estava hospedada. O guitarrista deu o ar da graça para ver o mar de gente que os aguardava.
O guitarrista Ronnie Wood comentou a data histórica em suas redes sociais.
Dinâmica dos palcos
A banda havia chegado ao palco principal por meio de uma passarela que saía diretamente do Hotel Copacabana Palace —uma rota privada que os levava do luxo do hotel ao espetáculo gratuíto e ao ar livre.
A estrutura do show era inovadora para a época. Do palco principal, uma ponte móvel levava a um segundo palco que surgia no meio da plateia —o palco menor que Ronaldo aguardava desde cedo.
Essa estrutura aproximava os músicos de parte do público e alterava completamente a dinâmica do espetáculo. Era por essa ponte que os Stones atravessavam para chegar ao palco menor, em um trajeto que parecia fazer os ingleses viajarem no tempo, criando uma intimidade com o público e ao som de clássicos dos anos 1960.
A noite de apresentações
Três atrações nacionais abriram a noite: DJ Marcelo Janot, o AfroReggae e os Titãs. Quando os Stones finalmente subiram ao palco principal, o público que havia resistido ao calor extremo finalmente viu seus ídolos.
O repertório misturou os clássicos esperados com momentos mais íntimos. No palco principal, a banda tocou “Jumpin’ Jack Flash”, “It’s Only Rock ‘n’ Roll”, “Miss You” e “Sympathy for the Devil”, entre outros clássicos.
Depois, atravessaram a ponte para o palco menor, onde apresentaram versões de “Get Off of My Cloud”, “Wild Horses” e “Tumbling Dice”, criando um momento único em que parte da plateia pôde sentir a presença dos músicos de forma muito mais próxima.
O concerto durou cerca de duas horas, terminando por volta das 23h40. Fãs como Juliana e Ronaldo saíram da praia exaustos pelo calor, mas com a sensação de terem participado de algo histórico.
O show de Copacabana integrou a turnê “A Bigger Bang”, lançada em 2005 após a recuperação do baterista Charlie Watts, diagnosticado com câncer em 2004.
O álbum e a turnê marcaram um retorno criativo e comercial para a banda. Em 2006, eles tocaram no intervalo do Super Bowl XL, fizeram a primeira apresentação oficial na China e, até o fim de 2006, contabilizavam mais de 140 shows. Aquela turnê tornou-se uma das mais lucrativas da época.
Legado duas décadas depois
Vinte anos depois, o show permanece como referência. Imagens aéreas, registros de TV e relatos pessoais mantêm viva a dimensão do evento.
A herança daquele 18 de fevereiro de 2006 também se vê na frequência com que a orla carioca recebe hoje grandes espetáculos internacionais.
Shows de Madonna e Lady Gaga voltaram a ocupar a praia em anos mais recentes, e Copacabana está programada para receber Shakira em 2 de maio deste ano.
O formato e a ambição técnica daquele show dos Stones ajudaram a consolidar a praia de Copacabana como palco possível para megacombinações de público, transmissão e produção.
Setlist
Palco principal:
- “Jumpin’ Jack Flash”
- “It’s Only Rock ‘n’ Roll”
- “You Got Me Rocking”
- “Tumbling Dice”
- “Oh No Not You Again”
- “Wild Horses”
- “Rain Fall Down”
- “Midnight Rambler”
- “Night Time Is The Right Time”
Palco menor
- “This Place Is Empty” (vocais: Keith Richards)
- “Happy” (vocais: Keith Richards)
- “Miss You”
Retorno ao palco principal / fechamento
- “Rough Justice”
- “Get Off Of My Cloud”
- “Honky Tonk Women” (retorno definitivo ao palco principal)
- “Sympathy For The Devil”
- “Start Me Up”
- “Brown Sugar”
Bis
- “You Can’t Always Get What You Want” (encore)
- “(I Can’t Get No) Satisfaction” (encore)
Por Gazeta do DF
Fonte CNN Brasil
Foto: Brian Rasic/Getty Images














