Moradores da Vila Cauhy podem ser obrigados a deixar residências

GDF faz levantamento de casas ameaçadas em desabar e estuda como poderá realocar os proprietários delas em áreas seguras

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Perda de móveis, roupas e alimentos, e residências com problemas estruturais causados pela inundação. Esses são alguns dos problemas com que os mais de 5 mil moradores da Vila Cauhy, no Núcleo Bandeirante, passaram a lidar desde que o córrego Riacho Fundo transbordou, na primeira semana de janeiro, devido às fortes chuvas. E como se fosse pouco, encaram mais duas novas dores de cabeça: a contaminação por dengue e a possibilidade de terem que deixar suas casas por risco de desabamento.

Segundo a liderança comunitária da região, 110 moradias estão em situação de perigo. E, a muitos dos seus proprietários, agentes da Secretaria de Proteção da Ordem Urbanística do DF (DF Legal) e da Defesa Civil do DF (DCDF) entregaram notificações alertando sobre a situação. O governo afirmou estar preocupado com a integridade física dessas pessoas e que busca soluções que os atendam.

Uma das vítimas da cheia do início do ano foi o armador de ferragem Gilmar Lins Andrade, 52 anos, que vive há 38 na região. Com o alagamento, ele perdeu a máquina de lavar e a cama, entre outros bens. Questionado sobre o alerta dos órgãos públicos, respondeu: “Se não tiver outro lugar para morar, queremos permanecer aqui”.

A zeladora Francisca Oliveira, 42, moradora há duas décadas e meia na vila, reclamou da notificação. “Quando chove, a água se encontra com o córrego Riacho Fundo e fica aquele mar de água. Deviam melhorar a infraestrutura para escoar melhor a água e evitar focos do mosquito”, disse ela, que teme contrair a doença.

“Não tenho vontade de ir embora porque estou aqui há muito tempo”, afirmou o pedreiro Antônio Ferreira Costa, 58, que lembrou do susto que teve ao ver a água invadir sua casa. Ele, que também está preocupado com a dengue, disse que seu neto de 7 anos foi diagnosticado com a doença na semana passada. “Não deixo água parada e tomo cuidado para que ela não se acumule. Tem muitas crianças e idosos na vizinhança”, falou mostrando cuidados com a sua saúde e a dos demais.

Medidas

A Secretaria de Saúde (SES) informou não haver registros de óbitos confirmados causados pela dengue entre os habitantes da Vila Cauhy. E que ações preventivas para erradicar focos do mosquito Aedes aegypti foram realizadas em 8 e 12 de janeiro. Contudo, o prefeito comunitário, Walter Marques, 43, disse desconhecê-las.

Na manhã de terça-feira (30/1), Marques foi à Defensoria Pública. Ele protocolou cópias das 62 comunicados enviados pela DF Legal e DCDF a vizinhos dele que, segundo afirmou, os avisavam de que suas residências seriam demolidas por estarem em risco de desabamento. O líder comunitário, que também é agente socioeducativo, disse haver recebido garantias do administrador regional do Núcleo Bandeirante, Cláudio Márcio de Oliveira, e do secretário adjunto de governo, Valmir Lemos, de que nenhum imóvel seria tocado pelos órgãos públicos. “Asseguraram a mim que não irão retirar essas famílias abruptamente. Mas que querem fazer um levantamento para saber quantas casas estão nessa área de risco”, informou.

Por outro lado, também no dia 30, o governador Ibaneis Rocha declarou que o GDF avalia como fazer a retirada dessas famílias: “A esperança é de que a gente consiga trazer a maioria das famílias para lotes que temos no Sol Nascente”. Vinculada à Secretaria de Segurança Pública (SSP), a Subsecretaria do Sistema de Defesa Civil divulgou que executa ações preventivas e assistenciais na Vila Cauhy.

De acordo com a SSP, desde janeiro a Defesa Civil tem trabalhado 24 horas por dia com equipes de prontidão e vistoriado mais de 100 edificações na região. Até agora, houve interdições em sete residências e uma passarela sobre o córrego.

Por sua vez, a DF Legal esclareceu que foi solicitado a 35 pessoas demolirem as casas de que são proprietárias por elas terem sido construídas, sem licenciamento, em área de risco. Já a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) afirmou que atendeu 183 famílias vítimas das fortes chuvas na Vila Cauhy. E destacou que foram liberados recursos de apoio social, como os auxílios calamidade e o de vulnerabilidade, ambos no valor de R$ 408.

Por Pedro Marra do Correio Braziliense

Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press / Reprodução Correio Braziliense